terça-feira, 23 de maio de 2017

Regulamento do Trânsito nas Estradas Florestais a Macadame da Mata de Leiria

            Atendendo à antiguidade do Pinhal do Rei/Mata Nacional de Leiria/Pinhal de Leiria, pode dizer-se que os transportes dentro da Mata foram, durante séculos, feitos por veículos de tracção animal, pois não havia outros.
            A tracção animal no Pinhal do Rei usou-se, em alguns casos, nomeadamente nas aldeias limítrofes, até quase ao século actual, apesar da existência já de boas rodovias e veículos rodoviários motorizados.
            Segundo Manuel Afonso da Costa Barros, Cabo dos Guardas do Real Pinhal de Leiria, Director das Fábricas Resinosas e Administrador Interino do Pinhal de Leiria em 1847, em “Reflexões e cálculos”, havia em 1772 “2129 carros obrigados ao serviço das conduções de madeira d’este Pinhal para o porto de S. Martinho”, havendo ainda a juntar a estes os carros usados pelas populações vizinhas na recolha de produtos do Pinhal para uso nas suas lavouras. Este número veio a decair significativamente e, em 1822, ainda segundo o mesmo autor, esse número era apenas de “200 carros para todos os serviços do Pinhal”, ainda assim um grande número.
            Recorde-se que, quase até finais do Séc. XIX, por falta de estradas, estes carros circulavam apenas por caminhos ancestrais abertos ao longo dos tempos no Pinhal.
            A partir de 1867, os Serviços Florestais, para seu uso próprio, construíram então algumas estradas dentro e fora do Pinhal.
            Em 1921, o Pinhal do Rei contava já com cerca de 31 km de estradas macadamizadas.
            Para circular nestas estradas e atendendo ao ainda grande número deste tipo de carros, houve a necessidade de se regulamentar o trânsito dentro do Pinhal, obrigando os Serviços Florestais a criar, em 1925, um regulamento especial para o efeito. Este regulamento, aprovado por despacho ministerial, foi complementado em 1926 através de Decreto-lei, aplicando-se alguns dos seus artigos ao regulamento já existente.
            Para circularem com os carros no interior do Pinhal, os carreiros estavam obrigados a possuir uma licença de trânsito, passada, conforme o regulamento, a troco de pagamento de taxas. Por outro lado, na verdade, tratava-se de um conjunto de proibições e obrigações, onde os incumpridores de qualquer dos seus artigos estavam sujeitos a pesadas multas.

Regulamento do Trânsito nas Estradas Florestais a Macadame
da Mata de Leiria (com Decreto-lei de 1926 anexo)
(In: Roldão, Gabriel, 2017, Elucidário do Pinhal do Rei, Marinha Grande)


Comboio de carros de tracção animal no Pinhal do Rei
Transporte de lenha - anos 50 de séc. XX

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A diversidade arbórea da zona da Ponte Nova

            Em princípios do séc. XIX, a zona da Ponte Nova era atravessada pela velha estrada que ligava a Marinha Grande a S. Pedro de Moel, da qual ainda há vestígios a nascente da Ponte Nova, na parte alta quando se vem de Pedreanes. Esta estrada passava mesmo junto às instalações do engenho de serrar movido com água do ribeiro, existindo uma pequena ponte para atravessamento do ribeiro. Para além disto, a Ponte Nova seria, provavelmente, uma zona ainda muito fechada e sem outros acessos.
            Porém, tudo mudou quando experiências florestais com diversas espécies de árvores começaram, mais ou menos nessa época, a ser feitas no Pinhal do Rei.
            O Viveiro do Tromelgo, com Frederico Varnhagem, pode ter sido o início destas experiências.
            Recorde-se parte do que aqui escrevi acerca do Viveiro do Tromelgo:

             «Desconhece-se ao certo a data de entrada em funcionamento do viveiro do Tromelgo mas um documento enviado a Frederico Varnhagem em 1826, citado por Arala Pinto em 1938 no seu livro “Pinhal do Rei”, já dizia: “Remeto a V. S.ª huma porção de Penisco, novo, colhido nos Bosques da Polonia, e da Rússia Branca, a fim de que de baixo de todo o cuidado e observação V. S.ª o faça semear, como melhor julgar, nos Reaes Pinhaes da sua Administração; devendo V. S,ª de huma pequena porção do referido Penisco fazer sementeira, onde entender mais acertado, em alfobres, (…), enquanto não vingam. E posteriormente informar-me do resultado destas plantações.”.
            Poderá ter estado aqui o início do viveiro do Tromelgo, onde o terreno era fresco, fundo e havia água em abundância.
            Em 1838, num outro documento, também citado por Arala Pinto, manifestava-se a preocupação com a qualidade e estado das sementes. E em 1839, já no tempo da Rainha D. Maria II, é seu marido D. Fernando II que pretendendo introduzir novas essências florestais se dirige a Frederico Varnhagem, através da Secretaria de Estado do Negócio da Marinha e do Ultramar: “De ordem de Sua Exª. O Ministro e Secretário de Estado desta Repartição tenho a honra de enviar a V. Exª. O pequeno caixote, que receberá pelo Seguro, e o qual encerra trinta e três amostras de diferentes espécies de Pinheiros as quais foram dadas a Sua Exª. Por Sua Magestade o Sr. D. Fernando o Segundo, a fim de serem mandados semear e cultivar com esmero as futuras plantas, dando V, S.ª conta do resultado desta sementeira, como sua Ex.ª manda muito recomendar (…)”.
            O viveiro do Tromelgo foi ampliado no tempo de João de Fontes Pereira de Melo, sucessor de Frederico Varnhagem, e em 1845 recebe várias espécies de sementes.
            “Em 1868 já se ordena que dos viveiros do Tromelgo e do Engenho sejam fornecidas plantas à Câmara Municipal de Vila do Conde”, segundo nos diz também Arala Pinto, referindo a existência de documentação comprovativa em arquivo na 3ª Circunscrição Florestal (Marinha Grande).
            Ao longo dos tempos, no viveiro do Tromelgo, talhões 289/290 do Pinhal do Rei, foram plantadas várias espécies de árvores e plantas destinadas a serem distribuídas pelas Câmaras Municipais e Serviços Florestais de todo o país.».

            Era portanto o tempo de se desenvolver o cultivo de novas espécies florestais em Portugal.
            Assim, era normal naquela época que os novos administradores que chegavam ao Pinhal Real mandassem fazer experiências de plantio de novas espécies, não habituais nestas paragens. Também os locais para essas experiências era normal que fossem escolhidos com base nas condições de cada local, sendo que a presença de água seria sempre essencial.
            Foi por isso que se plantaram diversas espécies de árvores em locais onde esse requisito estava presente, como ainda hoje podemos confirmar no Tromelgo, Samouco, Água Formosa ou Ponte Nova, todos eles junto a nascentes de água ou ribeiros.
            Há referências a que, em 1892, chegou a haver um viveiro de acácias no talhão 179 e um viveiro de eucaliptos no talhão 162. Alguns desses eucaliptos foram provavelmente plantados na Ponte Nova.
            Já no séc. XX, durante a administração de Arala Pinto, com a construção, em 1929/30, da estrada do “Canto do Ribeiro”, que liga a Ponte Nova à Praia Velha, para embelezar todo o trajecto ao longo do ribeiro, a par, certamente, de novas experiências florestais, foram plantadas várias espécies arbóreas. E já depois de 1950, com a construção da estrada da “Valdimeira”, que liga a Ponte Nova à estrada entre a Marinha Grande e S. Pedro de Moel (EN 242-2), em continuação da estrada do “Canto do Ribeiro”, mais espécies foram plantadas (eucaliptos, carvalhos, faias e amieiros) para embelezamento de todo o trajecto, quebrando assim a monotonia arbórea (pinheiro bravo) que caracteriza o Pinhal do Rei.
            Terá sido assim que a diversidade arbórea da zona da Ponte Nova nasceu, oferecendo-nos hoje em dia o mais belo itinerário do Pinhal do Rei, onde, ao longo do Ribeiro de S. Pedro de Moel, podemos observar um conjunto de árvores notáveis: eucaliptos gigantes, com mais de 50 metros de altura (dos maiores da Europa), raros exemplares de carvalhos, faias e amieiros.
            Ao longo deste trajecto, sendo a Ponte Nova e suas imediações locais de muitas nascentes de água, facilmente podemos encontrar um grande número de fontes.
            Como se vê, estamos na presença de um lugar repleto de recantos paradisíacos, onde se pode repousar, contemplar a Natureza e merendar em mesas colocadas estrategicamente ao longo do Ribeiro.

Eucaliptos gigantes na Ponte Nova


Fonte da Ponte Nova

Parque de merendas junto ao açude da Ponte Nova e Ribeiro de Moel
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