segunda-feira, 24 de abril de 2017

A madeira para construção naval

            Sabe-se hoje que o Pinhal do Rei (Pinhal de Leiria) não teve a sua origem em sementeiras feitas por ordem de D. Dinis. Segundo a maioria dos investigadores, a afirmação de que teria sido D. Dinis a mandar plantar o Pinhal poderá ter partido de antigos Cronistas do Reino que, sem o devido fundamento, assim o afirmaram.
            A origem do Pinhal do Rei perde-se na vastidão dos tempos. No entanto, sabe-se que, mesmo antes da fundação de Portugal, já aqui existia algum tipo de mata, talvez apenas pinheiro manso (está ainda por confirmar) e alguma outra vegetação espontânea.
            Porém, é também sabido que D. Dinis, fomentador e precursor de empreendimentos marítimos, dedicou à floresta grande atenção, para que no futuro não faltasse matéria-prima à construção de embarcações. Esta atenção, entre outros interesses, nomeadamente agrícolas, levou a que D. Dinis fomentasse o aumento desta mata, fazendo novas sementeiras e, como se julga, introduzindo o pinheiro bravo.
            Logo durante o reinado de D. Dinis (1279-1325), o Pinhal, à data existente, começou a fornecer madeira para construção de pequenos barcos, com os quais se iniciou o comércio marítimo e as pescas nos ancoradouros da região.
            Também D. Fernando, no seu reinado (1367-1383), continuou a dar grande importância ao Pinhal, pois ao desenvolver cada vez mais a indústria de construção naval com vista ao comércio e à navegação precisava das suas madeiras.
            Segundo Arala Pinto, que, nos anos 30 do passado século, em obras de alargamento da estrada florestal junto ao “Canto do Ribeiro” (foz do ribeiro de Moel na Praia Velha) encontrou ruinas de uma presumível barragem do tempo de D. Fernando e após estudos que fez em antigos documentos, consta que o Monarca tenha mandado construir, na foz do ribeiro de Moel, uma lagoa artificial onde as madeiras vindas pelo ribeiro chegavam e eram retidas para serem mais tarde carregadas em barcos que as levavam aos estaleiros da Pederneira (Nazaré), Alfeizerão (S. Martinho do Porto) e Ribeira das Naus (Lisboa).
            A partir de 1415, no reinado de D. João I, iniciaram-se as conquistas em África e, mais tarde, as primeiras Descobertas.
            No reinado de D. Manuel I (1495-1521), com a grande expansão marítima e a presença nos mares de cada vez mais embarcações portuguesas, o Pinhal manteve sempre grande importância no fornecimento de madeira para construção naval.
            Por motivos idênticos, os reis espanhóis que governaram Portugal entre 1580 e 1640 deram também grande importância ao Pinhal.
            Após a restauração da independência portuguesa, D. João IV, ao querer reaver as possessões que se tinham perdido durante o domínio espanhol, precisava refazer a Armada, que se encontrava destruída, necessitando para isso de grandes quantidades de madeira. Mais uma vez, o Pinhal satisfez essas necessidades.
            A partir daí, a necessidade de madeira para construção naval decaiu um pouco e, mais tarde, em 1850, com o aparecimento da chapa de ferro para construção de grandes barcos, alguns estaleiros passaram por dificuldades.
            No entanto, e até finais do século XIX, o Pinhal continuou, em força, a fornecer madeira para a construção naval, pois esta indústria enveredou por outro tipo de barcos onde a madeira era ainda essencial: pequenos barcos de pesca, de recreio, arrastões, bacalhoeiros, traineiras, etc.
            Assim, a madeira do Pinhal do Rei teve como principal destino, além de outros, até meados do sécXIX, a construção naval.
            E, já no século XX, segundo Arala Pinto, com a construção dos navios bacalhoeiros que iam à Terra Nova e Gronelândia, e por nota que lhe foi fornecida pelo Regente Florestal Sr. Manuel Alberto Rei, se gastava a seguinte quantidade de madeira:

In: Pinto, António Arala, 1938, O Pinhal do Rei - Subsídios





In: Fernandes, Manuel, 1616, Livro das Traças de Carpintaria

domingo, 9 de abril de 2017

Futebol no Pinhal do Rei

            Ao longo dos tempos, particularmente a partir de finais do século XIX, têm sido inúmeras as cedências de parcelas de terreno do Pinhal do Rei para as mais diversas utilizações.
            De facto, o desenvolvimento do concelho da Marinha Grande, nomeadamente as povoações de Vieira de Leiria, Praia da Vieira e S. Pedro de Moel, cercadas pela grande Mata, levou a que grandes parcelas de terreno do Pinhal fossem cedidas ao concelho da Marinha Grande para o imprescindível crescimento destas povoações. Destes terrenos, alguns foram cedidos para agricultura, outros para urbanização e construção de habitações e outros, por necessidades cada vez maiores dos povoados, para as mais diversas utilizações, desde escolas, mercados, parques de campismo, depósitos de água, uma ETAR (S. Pedro de Moel), etc.
            Para além da cedência de terrenos junto às referidas povoações, a pedido das mais diversas instituições, houve também algumas parcelas cedidas no interior do próprio Pinhal. Foram disso exemplos os terrenos cedidos para instalação de captações e depósitos de água, lixeira (deveria ter sido aterro sanitário), antenas de telecomunicações (telemóveis) e até um observatório astronómico. Mas houve mais, como foi o caso dos terrenos cedidos ou autorizações dadas para construção de estruturas desportivas: ciclovias, percursos pedestres, campos de treino para caça, ou campos de futebol.
            E é sobre um campo de futebol o propósito deste comentário.
            Existe na praia da Vieira, no talhão 1 do Pinhal do Rei, à esquerda do “Ramal da Praia”, estrada que liga a Vieira de Leiria à Praia da Vieira, um campo de futebol abandonado. Não é intenção dizer aqui algo sobre essa situação de abandono, mas sim apenas elucidar como aparece no meio do Pinhal um campo de futebol.
            Foi no longínquo ano de 1923 que a direcção do Grupo de Foot-Ball Operário Vieirense apresentou à Direcção Geral dos Serviços Florestais um pedido para cedência do terreno e autorização para instalação do seu campo de futebol. O pedido viria a ser aprovado mediante um protocolo assinado entre as duas entidades. Estabeleceu-se, assim, o arrendamento do terreno por uma quantia de 15 escudos por ano, construindo-se então o campo de futebol.
            Porém, algum tempo depois, o Grupo de Foot-Ball Operário Vieirense viria a ser extinto, voltando o terreno à posse administrativa dos Serviços Florestais.
            Ora, em 1934, mantendo-se instalado o campo de jogos, foi cedido o direito de uso ao Grupo Desportivo da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vieira de Leiria.
            A cessão foi feita por decreto-lei em Setembro de 1934, sendo lavrado o auto em Dezembro de 1944 na Repartição de Finanças da Marinha Grande.
            Actualmente este campo de jogos encontra-se desactivado. Por isso, conforme pode ler-se no Plano de Gestão Florestal – Mata Nacional de Leiria, «(…) o campo não se encontra a desempenhar a função para a qual foi criado, tendo novamente revertido a sua gestão para a UGF (Unidade de Gestão Florestal do Centro Litoral).

Vista geral do campo de jogos

Baliza (sul)

Edifício de apoio
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