terça-feira, 17 de outubro de 2017

O incêndio de 15/10/2017 no Pinhal do Rei

           A Mata Nacional de Leiria, oficialmente assim designada mas carinhosamente conhecida no Concelho da Marinha Grande por Pinhal do Rei, desapareceu quase na sua totalidade.
            De facto, com início no passado dia 15 e consequente prolongamento a 16 deste mês de Outubro, um incêndio de grandes proporções fez desaparecer, segundo as primeiras análises, cerca de 80% do Pinhal do Rei, desaparecendo, assim, quase dois terços do património natural do Concelho da Marinha Grande.
            Este invulgar incêndio outonal, ocorrido num atípico dia de Outubro, cuja temperatura chegou a atingir os 36º, parece ter tido a sua origem ao início da tarde a sul do Pinhal na povoação da Burinhosa ou nos seus arredores, em circunstâncias ainda por apurar.
            Com o país a atravessar um ano considerado de seca extrema, decorrido o Verão e chegando a Outubro mantendo-se as mesmas condições, o incêndio tinha todas as condições para uma favorável evolução. Para além disto, tendo início a sul da Mata, o fogo beneficiou também da fortíssima intensidade do vento e da sua anormal direcção, de sul para norte, contrariamente ao que é normal. Outro factor que muito contribuiu para a dimensão que o incêndio tomou está relacionado com a débil limpeza que tem sido dedicada ao Pinhal nos últimos anos, quase ocultando aceiros, arrifes e estradas, e originando uma enorme carga combustível.
            Por outro lado, também as inúmeras ocorrências, mais de 500, por todo o país, levaram, por falta de meios, a alguns contratempos no ataque a este incêndio, fazendo-se, porém, o possível e o impossível (quase) para acudir a tão grande catástrofe.
            Com a administração à distância, com o fim dos guardas florestais e equipas de trabalhadores rurais (assim eram chamados) ao serviço das matas nacionais, que tão bem tratavam delas, dois ou três técnicos locais revelam-se impotentes por falta de meios a todos os níveis. É como diz o provérbio: "não se podem fazer omeletes sem ovos".
            Este incêndio é cerca de 3,5 vezes maior do que o grande incêndio de 2003 e cerca de 1,8 vezes maior do que o incêndio do Facho em 1824, que ficou conhecido como "A Queimada", e que era até aos dias de hoje considerado como o maior incêndio (conhecido) no Pinhal do Rei. Agora já não é.
            Recordem-se as áreas ardidas nestes três incêndios:

            Em 2003, 2563 hectares (cerca de 25% do Pinhal)
            Em 1824, cerca de 5000 hectares (cerca de 45% do Pinhal)
            Em 2017, cerca de 9000 hectares (cerca de 80% do Pinhal)

            Depois desta tragédia, com o valor da madeira a desvalorizar rapidamente, o Pinhal será cortado a breve trecho. E se a tudo isto juntarmos alguns problemas que já vinham a revelar-se com a Duna Primária e a reflorestação atempada após os regulares cortes ou adversidades passadas, como foi o caso do já referido incêndio de 2003 ou do temporal de 2013, eis-nos de novo na época de D. Dinis, quando as areias vindas do litoral, impelidas pelos ventos de oeste, avançavam para as terras do interior prejudicando a agricultura e as novas sementeiras de Pinhal.
            Não sendo um problema apenas do litoral, e muito menos exclusivo do Pinhal do Rei, dadas as consequências da enorme área florestal ardida nos últimos anos, é necessário agir rapidamente mas de forma organizada.
            É preciso voltar ao início do século XIX, aos tempos de José Bonifácio de Andrada e Silva e gerações posteriores, que, desde esses remotos tempos, numa acção contínua, culminada com o Plano de Povoamento Florestal de 1938, eliminaram por completo, nos 30 anos que se seguiram, os desertos de areias móveis do litoral português e concluíram o povoamento florestal dos terrenos baldios a norte do Tejo.
            Depois de quase dois dias de árduo combate às chamas, com os corajosos bombeiros, que de todo o país acudiram a mais esta tragédia nacional, e com a ajuda da valorosa população, o incêndio, quase dominado, capitulou definitivamente numa noite chuvosa.
            Com o Sol de novo a brilhar, o pouco que restou desta esplendorosa Mata, com mais de 700 anos de história, ficará de lembrança daquela que era a mais antiga mata nacional. Porém, tudo o que dela desapareceu ficará para sempre na memória e no coração daqueles qua a conheceram, principalmente do Povo da Marinha Grande que sempre amou e respeitou a sua Mata, a “Catedral Verde e Sussurrante” como lhe chamou Afonso Lopes Vieira.
            É preciso, agora, saber reerguer o novo Pinhal do Rei, tratá-lo e amá-lo como fizeram os nossos antepassados, de modo a que os vindouros dele possam usufruir, tanto como nós usufruímos.

O incêndio nas suas primeiras horas.

Casa de guarda da Cova do Lobo destruída pelo incêndio.

domingo, 24 de setembro de 2017

O Pinheiro do Sr. Borges

          Existiram noutros tempos no Pinhal do Rei, tal como nos dias de hoje, alguns pinheiros que, pelas suas dimensões ou forma, se destacavam na Mata.
            Em 1941, acerca das árvores notáveis existentes nesta Mata, O Eng.º Arala Pinto, Chefe da Circunscrição Florestal da Marinha Grande e Administrador do Pinhal do Rei entre 1927 e 1956, no segundo volume do seu livro “O Pinhal do Rei”, deixou-nos importantes informações .
            Entre essas antigas árvores notáveis, existiu no talhão 226 um pinheiro que ficou conhecido como “O Pinheiro do Sr. Borges”. As suas dimensões compreendiam uma altura total de 43 metros e um diâmetro a 1,30 m do solo (DAP – diâmetro à altura do peito) de 1,10 metros.
            Idade provável em 1941, 200 anos.

O Pinheiro do Sr. Borges – anos 30 do Séc. XX

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Mappa dos Pinhaes de S. Mag.de e da Universidade de Coimbra; da Caza do Infantado, e do Conselho de Leyria

            Este mapa, elaborado em 1765, foi composto por ordem do Ministro e Secretário de Estado Francisco Xavier de Mendonça Furtado pelo Sargento Mor Guilherme Elsden.
            De ambos os lados deste curioso mapa encontram-se "explicações" económicas correspondentes a cada um dos pinhais nele representado e quatro panorâmicas com os seguintes títulos: 

           ● “Forma de embarcar Madeira no Verão, em quanto não for praticável o Porto de S. Pedro de Moel" 

           ● "Perspectiva de huma Nova Fabrica do Pez, que pode dar quasi o necessário pa. o Consumo deste Reino, aproveitando-se a madeira q sem esta applicação se perde inutilmente"

           ● "Perspectiva de Porto de St. Pedro de Moel"

           ● "Boca da Mina de Carvão de Pedra no Pinhal de S.Me”.

            Em 1769, este mapa viria a ser a origem do novo “Mapa dos Pinhais de S. Majestade, e S. Alteza do Concelho de Leiria e Universidade de Coimbra com os Lugares e Povos Vezinhos”, elaborado pelo mesmo autor. Relativamente ao mapa de 1765, este novo mapa tornou-se mais completo, sobretudo sob o aspecto toponímico. Porém, não foram copiadas as panorâmicas do mapa de 1765.

Mappa dos Pinhaes de S. Mag.de e da Universidade de Coimbra;
da Caza do Infantado, e do Conselho de Leyria

Esta gravura representa a forma de embarcar madeira no
Porto de S. Pedro de Moel quando o porto não era praticável.

            Os Saveiros, barcos de fundo chato e movidos a remos, rebocavam jangadas carregadas de madeira levando-a até aos hiates do Arsenal da Marinha que se encontravam fundeados ao largo, sendo esta depois içada para bordo.

Esta gravura sugeria o que poderiam vir a ser os fornos
da nova Fábrica do Pez em S. Pedro de Moel.

            A fábrica de S. Pedro de Moel, cuja ordem de construção só viria a ser dada no Regulamento de 1790 (Regulamento Interino que Sua Majestade Manda observar no Real Pinhal de Leiria) possuía 8 fornos e situava-se perto do local onde viria a ser construída a casa de guarda de S. Pedro de Moel, nos terrenos sobranceiros ao vale. Trabalhou a partir de 1790.

Esta gravura mostra uma perspectiva do que era
o Porto de S. Pedro de Moel naquela época.

Esta gravura mostra a entrada da mina de carvão de
pedra em exploração no Pinhal do Rei naquela época

Explicação do Pinhal da Universidade de
Coimbra (Mata Nacional do Urso) e explicação do Pinhal
do Concelho de Leiria (Mata Nacional do Pedrogão)

Explicação do Pinhal de Sua Majestade (Pinhal do Rei)
e explicação da composição do Mapa


Nota: fotografias de partes dos painéis instalados junto à foz do Rio Liz na Praia da Vieira no âmbito do Percurso Pedestre - Praia da Vieira - PR1 MGR.

sábado, 22 de julho de 2017

Circuito de Manutenção do Ribeiro da Tábua

            Não foi ainda há muito tempo que por aqui deixei algo escrito acerca do antigo campo de futebol situado no talhão 1 do Pinhal do Rei, à esquerda da estrada que liga a Vieira de Leiria à Praia da Vieira.
            Deixei, nessa ocasião, por falar da existência de vestígios, ainda bem visíveis, de um antigo circuito de manutenção física em redor desse campo de futebol.
            São vários os pontos de paragem e exercício, alguns ainda com os aparelhos de treino, ou parte deles, embora, naturalmente, já degradados.
            Cada um dos pontos de paragem e treino está assinalado com uma placa vertical, em cimento, decorada com bonitos painéis de azulejo exemplificando o exercício físico a executar. Estes painéis, datados de 1989, dão-nos a indicação de que foi nesse já longínquo ano que este circuito terá sido construído, sendo seu principal impulsionador o Sr. António Vasco, grande entusiasta do desporto em Vieira de Leiria. Por outro lado, estão também assinados pelo seu autor, Paulo Correia, artista há muito radicado em Vieira de Leiria.
            Para além do autor e da data indicados nos painéis, podemos ainda ver em um deles a indicação da olaria onde foram construídos. Trata-se da antiga “Olaria Maria Fernanda Lda.” em Vieira de Leiria, já desaparecida desde finais dos anos 90 do passado século, pelo que pude apurar.
            O estado de degradação a que chegou este equipamento desportivo parece estar relacionado com a existência de novos equipamentos nas redondezas, novas “modas” para exercício físico, falta de manutenção e também algum vandalismo. De facto, facilmente se detecta o desaparecimento de alguns dos aparelhos de exercício e o estado de degradação dos que ainda restam.
            Algumas das já referidas placas de cimento, encimadas com painéis de azulejo, estão partidas e tombadas no chão, outras encostadas aos pinheiros, e uma delas, já partida em pedaços, foi preciso reconstruir o puzzle para poder observar o bonito desenho.
            Situado perto do Ribeiro da Tábua em zona de frondoso pinhal, em caminhos maioritariamente de terra batida, é pena que se tenha deixado chegar a tal estado de degradação este equipamento publico inserido em terrenos da Mata Nacional, pois ainda hoje estaria ao serviço das populações se tivesse havido alguma manutenção, certamente com custos diminutos, por parte das entidades competentes na área do desporto local.


Um dos painéis demonstrativos do exercício a executar

sexta-feira, 30 de junho de 2017

A caruma

            O termo caruma é talvez o mais conhecido para designar a folha ou um conjunto de folhas do pinheiro.
            De facto, socorrendo-nos de um velho dicionário, ficamos a saber que, consoante as localidades, encontramos várias designações dadas à folha ou a um conjunto de folhas do pinheiro. Assim, para além de caruma, encontramos por exemplo: agulha, agulheta, argaço, arguiço, candeia, cisca, cisco, faúlha, gravalha, moliço, etc. (Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa – Cândido de Figueiredo).
            Caracterizando as folhas do pinheiro, pode dizer-se que são uma espécie de agulhas, emparelhadas, de cor verde escura, rígidas e grossas e com 10 a 25 centímetros de comprimento, no caso do pinheiro bravo, enquanto as do pinheiro manso são sempre um pouco mais pequenas. Daqui podemos dizer, certamente, que provém a denominação “agulhas”, relativamente à folha do pinheiro. Porém, quanto às outras designações, indicadas no velho dicionário, não é dada qualquer explicação, nem as localidades onde são usadas.
            Por curiosidade e por não vir no dicionário, diga-se em acréscimo que no Valado dos Frades e seus arredores, bem perto do Pinhal de Rei, se usa o termo “aguilhota”.
            Quando velha e seca, a caruma adquire uma tonalidade castanha e vai caindo no chão, formando grandes tapetes no pinhal.
            A recolha da caruma e outros produtos no Pinhal do Rei, por parte das populações limítrofes, vem de tempos remotos, já que era um bem necessário à laboração das antigas lavouras e a sua apanha era gratuita, embora controlada.
            O Marquês de Pombal, no regimento de 1751, concedia ao povo autorização para retirar do Pinhal, lenha seca, ramas, mato, etc.
            Em 1826, no Reinado de D. João VI, aos habitantes das povoações à volta do Pinhal era autorizada a retirada de madeira, varolas, caruma e folhagem, necessárias à laboração das suas lavouras.
            Durante muito tempo (até meados do séc. XX), esta actividade foi sustento de grande parte da população, que, do Pinhal, retirava gratuitamente produtos para seu uso próprio ou comercialização, usando a ajuda de animais e carros de tracção animal ou até carregando-os ao ombro ou à cabeça.
            De facto, o uso da caruma pelos povos à volta do Pinhal era muito vasto. Um dos muitos usos que lhe era dado era o servir de aconchego nas camas dos animais. Usava-se também nas montureiras onde, juntamente com os excrementos dos animais, se produzia o esterco, usado depois como adubo na agricultura. Alguns outros usos iam, por exemplo, desde o simples facilitar do acendimento da lareira até ao atapetamento de pequenos caminhos.
            Acerca do atapetar de caminhos com caruma, refira-se que esta foi a solução encontrada pelos próprios Serviços Florestais quando, por volta de 1940, foram distribuídas bicicletas a todos os guardas florestais e se construíram trilhos com tapete de caruma para facilitar a deslocação desses veículos no próprio Pinhal.
            No Pinhal do Rei, depois de 1790, com a construção da Vala que circundava todo o Pinhal acompanhando o Aceiro Exterior (ou Geral), o Pinhal ficou fechado no que respeita a entradas e saídas, excepto os locais para o efeito escolhidos. Nesses locais foram construídas casas de guarda e em 1857 colocadas tranqueiras. Era ali que os guardas fiscalizavam todas as entradas e saídas de produtos do Pinhal. Para verificar os feixes de caruma ou de mato e evitar situações de abusos, os guardas possuíam uma vara de ferro que espetavam em vários pontos do feixe ou da carrada, verificando se havia algo escondido, vulgarmente lenha, dentro dos feixes ou das carradas.
            Lembro-me de em criança ouvir o termo “ir à caruma”. Era assim que se dizia lá em casa:
            - Temos de ir à caruma.
            Naquele tempo, existia ainda na Marinha Grande (Casal de Malta) o célebre Pinhal da Feira, aqui mencionado. Era aí que, com o ancinho e uma corda para atar o feixe, a minha mãe e alguns outros moradores daquela zona se deslocavam para a apanha da caruma. Depois de atado, o feixe era colocado à cabeça com a ajuda de alguém que passasse. Porém, quando não havia quem ajudasse, o feixe era encostado a um pinheiro e, à força de braços, empurrando-o contra o pinheiro e rodando-o faziam-no subir no próprio pinheiro até uma altura que se conseguisse meter a cabeça por baixo.
            Nos dias de hoje, pode dizer-se que, como actividade regular no Pinhal do Rei, a apanha de caruma está extinta, ou quase. E digo “quase”, porque, ainda há poucos dias, quando andava ali pelo Talhão 1 do Pinhal, perto de Vieira de Leiria, me deparei com alguém que fazia uma enorme carrada de caruma e depois a transportava num pequeno carro de tracção manual.
            O poeta leiriense Acácio de Paiva deixou-nos o excelente poema “O Feixe de Caruma”.


Burro carregado de caruma - anos 50 do séc. XX

Mulheres com feixes de caruma - anos 50 do Séc. XX
(Fotos da Direcção Regional de Agricultura da Beira Litoral)

Grupo de mulheres com ancinhos para apanhar caruma
(In: http://nazarevaladoalcobaca.blogspot.pt/2016/12/mulheres-na-aguilhota.html)


Apanha de caruma na actualidade

terça-feira, 23 de maio de 2017

Regulamento do Trânsito nas Estradas Florestais a Macadame da Mata de Leiria

            Atendendo à antiguidade do Pinhal do Rei/Mata Nacional de Leiria/Pinhal de Leiria, pode dizer-se que os transportes dentro da Mata foram, durante séculos, feitos por veículos de tracção animal, pois não havia outros.
            A tracção animal no Pinhal do Rei usou-se, em alguns casos, nomeadamente nas aldeias limítrofes, até quase ao século actual, apesar da existência já de boas rodovias e veículos rodoviários motorizados.
            Segundo Manuel Afonso da Costa Barros, Cabo dos Guardas do Real Pinhal de Leiria, Director das Fábricas Resinosas e Administrador Interino do Pinhal de Leiria em 1847, em “Reflexões e cálculos”, havia em 1772 “2129 carros obrigados ao serviço das conduções de madeira d’este Pinhal para o porto de S. Martinho”, havendo ainda a juntar a estes os carros usados pelas populações vizinhas na recolha de produtos do Pinhal para uso nas suas lavouras. Este número veio a decair significativamente e, em 1822, ainda segundo o mesmo autor, esse número era apenas de “200 carros para todos os serviços do Pinhal”, ainda assim um grande número.
            Recorde-se que, quase até finais do Séc. XIX, por falta de estradas, estes carros circulavam apenas por caminhos ancestrais abertos ao longo dos tempos no Pinhal.
            A partir de 1867, os Serviços Florestais, para seu uso próprio, construíram então algumas estradas dentro e fora do Pinhal.
            Em 1921, o Pinhal do Rei contava já com cerca de 31 km de estradas macadamizadas.
            Para circular nestas estradas e atendendo ao ainda grande número deste tipo de carros, houve a necessidade de se regulamentar o trânsito dentro do Pinhal, obrigando os Serviços Florestais a criar, em 1925, um regulamento especial para o efeito. Este regulamento, aprovado por despacho ministerial, foi complementado em 1926 através de Decreto-lei, aplicando-se alguns dos seus artigos ao regulamento já existente.
            Para circularem com os carros no interior do Pinhal, os carreiros estavam obrigados a possuir uma licença de trânsito, passada, conforme o regulamento, a troco de pagamento de taxas. Por outro lado, na verdade, tratava-se de um conjunto de proibições e obrigações, onde os incumpridores de qualquer dos seus artigos estavam sujeitos a pesadas multas.

Regulamento do Trânsito nas Estradas Florestais a Macadame
da Mata de Leiria (com Decreto-lei de 1926 anexo)
(In: Roldão, Gabriel, 2017, Elucidário do Pinhal do Rei, Marinha Grande)


Comboio de carros de tracção animal no Pinhal do Rei
Transporte de lenha - anos 50 de séc. XX

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A diversidade arbórea da zona da Ponte Nova

            Em princípios do séc. XIX, a zona da Ponte Nova era atravessada pela velha estrada que ligava a Marinha Grande a S. Pedro de Moel, da qual ainda há vestígios a nascente da Ponte Nova, na parte alta quando se vem de Pedreanes. Esta estrada passava mesmo junto às instalações do engenho de serrar movido com água do ribeiro, existindo uma pequena ponte para atravessamento do ribeiro. Para além disto, a Ponte Nova seria, provavelmente, uma zona ainda muito fechada e sem outros acessos.
            Porém, tudo mudou quando experiências florestais com diversas espécies de árvores começaram, mais ou menos nessa época, a ser feitas no Pinhal do Rei.
            O Viveiro do Tromelgo, com Frederico Varnhagem, pode ter sido o início destas experiências.
            Recorde-se parte do que aqui escrevi acerca do Viveiro do Tromelgo:

             «Desconhece-se ao certo a data de entrada em funcionamento do viveiro do Tromelgo mas um documento enviado a Frederico Varnhagem em 1826, citado por Arala Pinto em 1938 no seu livro “Pinhal do Rei”, já dizia: “Remeto a V. S.ª huma porção de Penisco, novo, colhido nos Bosques da Polonia, e da Rússia Branca, a fim de que de baixo de todo o cuidado e observação V. S.ª o faça semear, como melhor julgar, nos Reaes Pinhaes da sua Administração; devendo V. S,ª de huma pequena porção do referido Penisco fazer sementeira, onde entender mais acertado, em alfobres, (…), enquanto não vingam. E posteriormente informar-me do resultado destas plantações.”.
            Poderá ter estado aqui o início do viveiro do Tromelgo, onde o terreno era fresco, fundo e havia água em abundância.
            Em 1838, num outro documento, também citado por Arala Pinto, manifestava-se a preocupação com a qualidade e estado das sementes. E em 1839, já no tempo da Rainha D. Maria II, é seu marido D. Fernando II que pretendendo introduzir novas essências florestais se dirige a Frederico Varnhagem, através da Secretaria de Estado do Negócio da Marinha e do Ultramar: “De ordem de Sua Exª. O Ministro e Secretário de Estado desta Repartição tenho a honra de enviar a V. Exª. O pequeno caixote, que receberá pelo Seguro, e o qual encerra trinta e três amostras de diferentes espécies de Pinheiros as quais foram dadas a Sua Exª. Por Sua Magestade o Sr. D. Fernando o Segundo, a fim de serem mandados semear e cultivar com esmero as futuras plantas, dando V, S.ª conta do resultado desta sementeira, como sua Ex.ª manda muito recomendar (…)”.
            O viveiro do Tromelgo foi ampliado no tempo de João de Fontes Pereira de Melo, sucessor de Frederico Varnhagem, e em 1845 recebe várias espécies de sementes.
            “Em 1868 já se ordena que dos viveiros do Tromelgo e do Engenho sejam fornecidas plantas à Câmara Municipal de Vila do Conde”, segundo nos diz também Arala Pinto, referindo a existência de documentação comprovativa em arquivo na 3ª Circunscrição Florestal (Marinha Grande).
            Ao longo dos tempos, no viveiro do Tromelgo, talhões 289/290 do Pinhal do Rei, foram plantadas várias espécies de árvores e plantas destinadas a serem distribuídas pelas Câmaras Municipais e Serviços Florestais de todo o país.».

            Era portanto o tempo de se desenvolver o cultivo de novas espécies florestais em Portugal.
            Assim, era normal naquela época que os novos administradores que chegavam ao Pinhal Real mandassem fazer experiências de plantio de novas espécies, não habituais nestas paragens. Também os locais para essas experiências era normal que fossem escolhidos com base nas condições de cada local, sendo que a presença de água seria sempre essencial.
            Foi por isso que se plantaram diversas espécies de árvores em locais onde esse requisito estava presente, como ainda hoje podemos confirmar no Tromelgo, Samouco, Água Formosa ou Ponte Nova, todos eles junto a nascentes de água ou ribeiros.
            Há referências a que, em 1892, chegou a haver um viveiro de acácias no talhão 179 e um viveiro de eucaliptos no talhão 162. Alguns desses eucaliptos foram provavelmente plantados na Ponte Nova.
            Já no séc. XX, durante a administração de Arala Pinto, com a construção, em 1929/30, da estrada do “Canto do Ribeiro”, que liga a Ponte Nova à Praia Velha, para embelezar todo o trajecto ao longo do ribeiro, a par, certamente, de novas experiências florestais, foram plantadas várias espécies arbóreas. E já depois de 1950, com a construção da estrada da “Valdimeira”, que liga a Ponte Nova à estrada entre a Marinha Grande e S. Pedro de Moel (EN 242-2), em continuação da estrada do “Canto do Ribeiro”, mais espécies foram plantadas (eucaliptos, carvalhos, faias e amieiros) para embelezamento de todo o trajecto, quebrando assim a monotonia arbórea (pinheiro bravo) que caracteriza o Pinhal do Rei.
            Terá sido assim que a diversidade arbórea da zona da Ponte Nova nasceu, oferecendo-nos hoje em dia o mais belo itinerário do Pinhal do Rei, onde, ao longo do Ribeiro de S. Pedro de Moel, podemos observar um conjunto de árvores notáveis: eucaliptos gigantes, com mais de 50 metros de altura (dos maiores da Europa), raros exemplares de carvalhos, faias e amieiros.
            Ao longo deste trajecto, sendo a Ponte Nova e suas imediações locais de muitas nascentes de água, facilmente podemos encontrar um grande número de fontes.
            Como se vê, estamos na presença de um lugar repleto de recantos paradisíacos, onde se pode repousar, contemplar a Natureza e merendar em mesas colocadas estrategicamente ao longo do Ribeiro.

Eucaliptos gigantes na Ponte Nova


Fonte da Ponte Nova

Parque de merendas junto ao açude da Ponte Nova e Ribeiro de Moel

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A madeira para construção naval

            Sabe-se hoje que o Pinhal do Rei (Pinhal de Leiria) não teve a sua origem em sementeiras feitas por ordem de D. Dinis. Segundo a maioria dos investigadores, a afirmação de que teria sido D. Dinis a mandar plantar o Pinhal poderá ter partido de antigos Cronistas do Reino que, sem o devido fundamento, assim o afirmaram.
            A origem do Pinhal do Rei perde-se na vastidão dos tempos. No entanto, sabe-se que, mesmo antes da fundação de Portugal, já aqui existia algum tipo de mata, talvez apenas pinheiro manso (está ainda por confirmar) e alguma outra vegetação espontânea.
            Porém, é também sabido que D. Dinis, fomentador e precursor de empreendimentos marítimos, dedicou à floresta grande atenção, para que no futuro não faltasse matéria-prima à construção de embarcações. Esta atenção, entre outros interesses, nomeadamente agrícolas, levou a que D. Dinis fomentasse o aumento desta mata, fazendo novas sementeiras e, como se julga, introduzindo o pinheiro bravo.
            Logo durante o reinado de D. Dinis (1279-1325), o Pinhal, à data existente, começou a fornecer madeira para construção de pequenos barcos, com os quais se iniciou o comércio marítimo e as pescas nos ancoradouros da região.
            Também D. Fernando, no seu reinado (1367-1383), continuou a dar grande importância ao Pinhal, pois ao desenvolver cada vez mais a indústria de construção naval com vista ao comércio e à navegação precisava das suas madeiras.
            Segundo Arala Pinto, que, nos anos 30 do passado século, em obras de alargamento da estrada florestal junto ao “Canto do Ribeiro” (foz do ribeiro de Moel na Praia Velha) encontrou ruinas de uma presumível barragem do tempo de D. Fernando e após estudos que fez em antigos documentos, consta que o Monarca tenha mandado construir, na foz do ribeiro de Moel, uma lagoa artificial onde as madeiras vindas pelo ribeiro chegavam e eram retidas para serem mais tarde carregadas em barcos que as levavam aos estaleiros da Pederneira (Nazaré), Alfeizerão (S. Martinho do Porto) e Ribeira das Naus (Lisboa).
            A partir de 1415, no reinado de D. João I, iniciaram-se as conquistas em África e, mais tarde, as primeiras Descobertas.
            No reinado de D. Manuel I (1495-1521), com a grande expansão marítima e a presença nos mares de cada vez mais embarcações portuguesas, o Pinhal manteve sempre grande importância no fornecimento de madeira para construção naval.
            Por motivos idênticos, os reis espanhóis que governaram Portugal entre 1580 e 1640 deram também grande importância ao Pinhal.
            Após a restauração da independência portuguesa, D. João IV, ao querer reaver as possessões que se tinham perdido durante o domínio espanhol, precisava refazer a Armada, que se encontrava destruída, necessitando para isso de grandes quantidades de madeira. Mais uma vez, o Pinhal satisfez essas necessidades.
            A partir daí, a necessidade de madeira para construção naval decaiu um pouco e, mais tarde, em 1850, com o aparecimento da chapa de ferro para construção de grandes barcos, alguns estaleiros passaram por dificuldades.
            No entanto, e até finais do século XIX, o Pinhal continuou, em força, a fornecer madeira para a construção naval, pois esta indústria enveredou por outro tipo de barcos onde a madeira era ainda essencial: pequenos barcos de pesca, de recreio, arrastões, bacalhoeiros, traineiras, etc.
            Assim, a madeira do Pinhal do Rei teve como principal destino, além de outros, até meados do sécXIX, a construção naval.
            E, já no século XX, segundo Arala Pinto, com a construção dos navios bacalhoeiros que iam à Terra Nova e Gronelândia, e por nota que lhe foi fornecida pelo Regente Florestal Sr. Manuel Alberto Rei, se gastava a seguinte quantidade de madeira:

In: Pinto, António Arala, 1938, O Pinhal do Rei - Subsídios





In: Fernandes, Manuel, 1616, Livro das Traças de Carpintaria

domingo, 9 de abril de 2017

Futebol no Pinhal do Rei

            Ao longo dos tempos, particularmente a partir de finais do século XIX, têm sido inúmeras as cedências de parcelas de terreno do Pinhal do Rei para as mais diversas utilizações.
            De facto, o desenvolvimento do concelho da Marinha Grande, nomeadamente as povoações de Vieira de Leiria, Praia da Vieira e S. Pedro de Moel, cercadas pela grande Mata, levou a que grandes parcelas de terreno do Pinhal fossem cedidas ao concelho da Marinha Grande para o imprescindível crescimento destas povoações. Destes terrenos, alguns foram cedidos para agricultura, outros para urbanização e construção de habitações e outros, por necessidades cada vez maiores dos povoados, para as mais diversas utilizações, desde escolas, mercados, parques de campismo, depósitos de água, uma ETAR (S. Pedro de Moel), etc.
            Para além da cedência de terrenos junto às referidas povoações, a pedido das mais diversas instituições, houve também algumas parcelas cedidas no interior do próprio Pinhal. Foram disso exemplos os terrenos cedidos para instalação de captações e depósitos de água, lixeira (deveria ter sido aterro sanitário), antenas de telecomunicações (telemóveis) e até um observatório astronómico. Mas houve mais, como foi o caso dos terrenos cedidos ou autorizações dadas para construção de estruturas desportivas: ciclovias, percursos pedestres, campos de treino para caça, ou campos de futebol.
            E é sobre um campo de futebol o propósito deste comentário.
            Existe na praia da Vieira, no talhão 1 do Pinhal do Rei, à esquerda do “Ramal da Praia”, estrada que liga a Vieira de Leiria à Praia da Vieira, um campo de futebol abandonado. Não é intenção dizer aqui algo sobre essa situação de abandono, mas sim apenas elucidar como aparece no meio do Pinhal um campo de futebol.
            Foi no longínquo ano de 1923 que a direcção do Grupo de Foot-Ball Operário Vieirense apresentou à Direcção Geral dos Serviços Florestais um pedido para cedência do terreno e autorização para instalação do seu campo de futebol. O pedido viria a ser aprovado mediante um protocolo assinado entre as duas entidades. Estabeleceu-se, assim, o arrendamento do terreno por uma quantia de 15 escudos por ano, construindo-se então o campo de futebol.
            Porém, algum tempo depois, o Grupo de Foot-Ball Operário Vieirense viria a ser extinto, voltando o terreno à posse administrativa dos Serviços Florestais.
            Ora, em 1934, mantendo-se instalado o campo de jogos, foi cedido o direito de uso ao Grupo Desportivo da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vieira de Leiria.
            A cessão foi feita por decreto-lei em Setembro de 1934, sendo lavrado o auto em Dezembro de 1944 na Repartição de Finanças da Marinha Grande.
            Actualmente este campo de jogos encontra-se desactivado. Por isso, conforme pode ler-se no Plano de Gestão Florestal – Mata Nacional de Leiria, «(…) o campo não se encontra a desempenhar a função para a qual foi criado, tendo novamente revertido a sua gestão para a UGF (Unidade de Gestão Florestal do Centro Litoral).

Vista geral do campo de jogos

Baliza (sul)

Edifício de apoio

sexta-feira, 17 de março de 2017

O açude da Ponte Nova

            O pequeno açude existente no Ribeiro de Moel, poucos metros a montante da ponte da Ponte Nova, juntamente com as ruínas na margem esquerda do ribeiro a jusante da mesma ponte, têm por vezes levado alguns a pensarem tratar-se de vestígios do antigo engenho de serrar madeira movido com água do próprio ribeiro.
            Relativamente às ditas ruinas na margem esquerda do ribeiro, a jusante da Ponte Nova, ao analisar o aspecto do pouco que podemos actualmente visualizar, já que estas se encontram maioritariamente soterradas, podemos de facto, dada a aparente antiguidade, colocar a hipótese de se tratar de vestígios do antigo engenho ou da represa feita no ribeiro para alimentar a levada que levaria a água para accionar o engenho. Porém, no meu entender, para o podermos afirmar com absoluta certeza, seriam necessários estudos aprofundados e alguns trabalhos no terreno.
            Já em relação ao pequeno açude existente poucos metros a montante da ponte da Ponte Nova, pela sua aparente recente construção (meados do Séc. XX), e pelo que passo a descrever de seguida, pode-se afirmar que este não tem qualquer relação com o antigo engenho de serrar.
            Ora, em Setembro de 1948, na troca de correspondência entre Carlos Manuel Baeta Neves e Arala Pinto, já aqui referida acerca da construção da actual ponte daquele local, em “A ponte nova da Ponte Nova”, ficamos a saber que, por necessidade de uma nova ponte, maior e mais robusta e em local mais seguro do que aquele onde estava a velha ponte (arruinada), se escolheu a localização tendo em conta uma inevitável e necessária correcção torrencial, melhorando o leito do ribeiro e os acessos à nova ponte.
            Sabendo que a correcção torrencial implicava o desvio do leito do ribeiro, Arala Pinto ordenou a construção da nova ponte no local escolhido, e só depois as águas foram desviadas para o novo leito, aterrando-se então o antigo. Portanto, em toda aquela zona, o actual leito do ribeiro onde se encontra o pequeno açude não seria o leito do ribeiro na época do engenho de serrar madeira movido a água.
            Por outro lado, na mencionada troca de correspondência, Baeta Neves, acerca da anunciada correcção torrencial do ribeiro, escreve: «Surpreende-me tudo isto; em primeiro lugar que o ribeiro necessite de obra tão artificial como a que se anuncia (…)». É então que Arala Pinto, em resposta, justificando a necessidade do desvio do ribeiro, nos dá indícios da intenção de construir o açude, dizendo: «Que é bem necessário artificializar então o curso do ribeiro de Moel demonstrou-o a ruína da ponte corroída pelos seus alicerces. Mas também creio que não ficará ali nada mal uma pequena barragem a formar uma cantante queda de água.».
            Terá sido assim que, após o período de construção da actual ponte na Ponte Nova e o necessário desvio para correcção torrencial do Ribeiro de Moel, se construiu o pequeno açude que todos conhecemos hoje em dia. Todavia, a construção do açude só veio a concretizar-se durante a administração de Acácio Amaral, que, trabalhando como adjunto de Arala Pinto desde 1948, e por motivo de doença deste, tinha assumido a chefia da Circunscrição Florestal da Marinha Grande em 1956, já que a construção do açude só aconteceria em 1957, conforme inscrição no paredão principal.
            Há que dizer ainda, a quem de direito, que a ponte de madeira sobre a pequena barragem do açude merece já, por questões de segurança, ser substituída, uma vez que toda ela aparenta grande fragilidade, incluindo as já muito deterioradas vigas mestras.



O açude da Ponte Nova
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