quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Fábrica dos Franceses

            Lembro-me de em criança ir algumas vezes para a brincadeira, com amigos daquela época, para a fábrica dos franceses.
            Vivia nesse tempo na zona do Casal de Malta e o dito lugar de brincadeira ficava para lá (a sul) do Pinhal da Feira, assim chamado por ali se realizar mensalmente uma feira de gado, porcos. Era a feira dos porcos.
            Depois de atravessado o pinhal, atravessava-se também o caminho-de-ferro do oeste, a “linha do comboio” como nós dizíamos, apanhando-se depois um antigo carreiro em direcção a Este.
            Bem rápido chegávamos ao local, pois não era longe dali. Sei hoje que aquela zona fora outrora conhecida como Pinhal dos Cortiços. Era uma zona muito frondosa, com grandes árvores e muitas plantas, onde proliferava a cana-da-índia que nós usávamos nas nossas brincadeiras.
            Já em ruínas, havia um enorme palacete, residência do administrador da fábrica, que nós visitávamos e que tinha uma cave onde alguns dos meus amigos desciam por vezes munidos de lanternas, mas onde, eu, talvez por receio, nunca fui.
            Ao lado do palacete, já com muito pouca coisa de pé, havia as ruinas da antiga fábrica, onde também havia uma pequena cave onde já nada existia e cujo acesso se fazia por uma escada de ferro chumbada na parede. Ao lado, a enorme chaminé, ainda intacta, que os mais afoitos subiam até ao topo, dava-nos indicação de que estávamos em contexto de ruinas industriais, embora, naturalmente, naquela época, não fizéssemos ideia do que quer que fosse.
            Sei agora que se tratava das ruinas de duas antigas serrações de madeira montadas por franceses e que trabalhavam com madeira do Pinhal do Rei.
            Depois do corte dos pinheiros, com o machado ou com a serra de punhos movida por dois homens, a serragem das madeiras foi feita durante séculos por processos arcaicos, embora com algum rigor, por serradores manuais.
            Depois de abatida a árvore, esta era cortada em toros nas medidas exigidas pela futura aplicação que teriam. Era a serração braçal.
            Por volta de 1724, D. João V, tentando resolver o problema da serragem das madeiras, comprou e mandou instalar na Marinha Grande um engenho de serrar movido a vento. Devido a deficiências no seu mecanismo e por ser construído em madeira, este engenho foi destruído em 1774 por um incêndio provocado pelo atrito e nunca mais foi reconstruído.
            Também existiram engenhos de serrar movidos a força hídrica. Montados, crê-se, no século XVIII, situavam-se na Ponte Nova e em S. Pedro de Moel aproveitando a água dos ribeiros. Trabalharam até aos primeiros anos do século XIX.
            Os Serviços Florestais utilizaram pela primeira vez um engenho de serrar a vapor em 1859 no grande armazém de madeiras das Tercenas, junto à foz do Rio Liz, mas desta máquina pouco se sabe.
            Mais tarde foi adquirida uma moderna máquina (locomóvel), espécie de serração móvel a vapor, que passou a ser instalada, a partir de 1870, junto aos locais de abate dos pinheiros. Porém, por falta de estradas, havia muita dificuldade em movimentar a locomóvel pelas areias do Pinhal. Esta máquina foi depois transferida para o Parque do Engenho, onde se montou a serração mecânica. Esta fábrica teve grande importância para os Serviços Florestais e trabalhou durante muitos anos, não se sabendo exactamente a data da sua extinção.
            Mas seria a electricidade que haveria de revolucionar a indústria de serração de madeiras, apesar de, nalguns casos, a serração braçal, essa longeva profissão, se manter até meio de século XX.
            Em França, o aparecimento dos modernos motores eléctricos trouxe à indústria de serração de madeiras um grande desenvolvimento.
            Assim, mais desenvolvidos tecnologicamente, foram os franceses que vieram instalar na Marinha Grande as primeiras serrações movidas a electricidade.
            Em 1904 é fundada a Sociedade de Exploração Florestal de A. R. Duboscq, Beauvais & Pelletier (conhecida por “Fábrica dos Franceses”), de Henri Dubois. Esta fábrica, instalada a Sul da estação dos caminhos-de-ferro, estava equipada com as mais modernas máquinas existentes na época e chegou a empregar mais de 100 pessoas, trazendo grande desenvolvimento à Marinha Grande. Funcionou em pleno até 1914 mas, pouco tempo após o fim da Guerra 1914-1918, devido às dificuldades existentes, acabou por falir.
            Também montada por franceses, por volta de 1905, a C. Dupin & Cª teve as suas instalações junto da fábrica de Henri Dubois, também a Sul da estação dos caminhos-de-ferro. Esta fábrica trabalhava quase exclusivamente para exportação, embora, mais tarde, tivesse fornecido a Companhia Portuguesa de Madeiras. Funcionou até cerca do ano 1955.
            O início da laboração destas fábricas acabou por incentivar os portugueses à exploração desta indústria, sendo muitas as serrações que se montaram a partir daquela época na Marinha Grande, o que veio trazer grande desenvolvimento económico.
            Mais tarde, em 1952, também os Serviços Florestais haveriam de usar a electricidade para montar a Serração de Pedreanes.
            Da Fábrica dos Franceses já nada existe. Os terrenos foram vendidos à vidreira Santos Barosa, e tudo foi demolido para construção de novas instalações.
A Fábrica dos Franceses - ano de 1918

Armazenamento de madeiras na Fábrica dos Franceses

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Não há fumo sem fogo

            “O acesso às estradas no interior da Mata Nacional poderá vir a ser fechado ao público. De acordo com Álvaro Pereira, presidente da Câmara da Marinha Grande, o município já foi “ameaçado” de que poderiam regressar as “trancas” que em tempos impediram o acesso público às vias que atravessam a mata.
            Na Assembleia Municipal, questionado sobre o mau estado daquelas vias, Álvaro Pereira explicou que o município tentou recentemente que fosse definida qual pode ser a sua ação na melhoria das estradas florestais. “Disseram-nos que não se pode fazer nada”, explicou.
            Sem nunca se referir diretamente ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), entidade responsável pela zona florestal, Álvaro Pereira revelou ainda que “já ameaçaram que colocariam de novo as trancas que já existiram”.
            Muito embora sejam frequentes as queixas sobre o mau estado das vias, a verdade é que “para eles as estradas estão boas, pois só querem tirar de lá a madeira”, lamentou ainda o autarca. (…)”
(Excerto do publicado) In: www.regiaodeleiria.pt
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            A notícia já não é nova! Publicada no Jornal Região de Leiria na edição do passado dia 2 de Outubro, editada para online em 13 Outubro e já muito divulgada nas redes sociais na zona da Marinha Grande, esta notícia deixa todos os habitantes do concelho e arredores, amantes e usufrutuários do Pinhal do Rei, preocupados, já que nela se levanta a hipótese do regresso das antigas tranqueiras ao Pinhal.
            Recorde-se que, por volta de 1790, como medida de segurança e ao mesmo tempo controlo de entradas e saídas do Pinhal, o Ministro da Marinha, Martinho de Melo e Castro, mandou abrir uma grande vala com 2 metros de profundidade e 1.5 metros de largura que circundava todo o Pinhal, deixando apenas 4 passagens controladas por guardas. Estes passaram a viver com as suas famílias em casas construídas nesses locais (as casas de guarda). Com o aumento das populações à volta do Pinhal, mais passagens e mais casas de guarda iam sendo criadas e, cerca do ano de 1843, o número de casas de guarda ia em 12 e em 1898 estas eram já 20.
            Em 1857, como reforço do controlo de entradas e saídas do Pinhal, o Administrador José de Melo Gouveia proibiu a circulação de veículos dentro do Pinhal, depois do Sol-posto. Para isso, mandou colocar tranqueiras (vigas de madeira fechadas a cadeado) em todas as passagens, colocadas pelos guardas ao Pôr-do-Sol e só retiradas ao nascer do dia seguinte.
            Em 1926, a jurisdição das praias de S. Pedro de Moel e da Vieira passou para a Câmara Municipal da Marinha Grande. Foi por isso retirada a tranqueira da Guarda Nova, permitindo a passagem de veículos tanto de dia como de noite mantendo-se, no entanto, a proibição de saída de quaisquer produtos do Pinhal depois do Sol-posto. Em 1969 foi retirada a tranqueira de Água Formosa e, mais tarde, numa evolução natural, as tranqueiras foram sendo eliminadas, tendo sido retiradas definitivamente em 1975 com a liberalização do trânsito dentro do Pinhal.
            Ora, dizem os mais idosos que no fim do mundo se haveriam de ver coisas de admirar. De facto, voltar a uma situação de fecho de estradas no interior da Mata equivaleria a um retrocesso de cerca de meio século.
            Se, no Século XIX, se teve de recorrer ao fecho da Mata como medida de segurança, evitando roubos e abusos por parte das populações, já que todos necessitavam de madeira e outros produtos do Pinhal para uso nas suas lavouras, não vejo, nos dias de hoje, necessidade de voltar a fechar as estradas da Mata. Porém, neste País, já quase nada nos surpreende, ainda mais que não foi ainda há muito tempo que se alvitrou a hipótese do Pinhal do Rei vir a ser explorado por entidades privadas.
            Costuma-se também dizer que não há fumo sem fogo, mas uma medida desta natureza terá o repúdio de toda a população marinhense e de todos os amigos do Pinhal do Rei.

Controlo de carradas à saída do Pinhal em Pedreanes - anos 50 do séc. XX

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

As Mamas da Rainha

            Existe no Pinhal do Rei um local conhecido por Mamas da Rainha. Caracterizado por duas grandes dunas de forma arredondada, este local situa-se nos talhões 140 e 156 no enfiamento do Aceiro I ou da Cova do Lobo, que se interrompe ao encontrar tão abruptas dunas, prosseguindo, mais à frente, após estas. Também a estrada florestal coincidente com este aceiro, que se inicia junto ao Aceiro Exterior no lugar da Cova do Lobo, ao chegar a estas dunas as contorna, deixando-as à esquerda, prosseguindo depois até ao lugar do Samouco.
            As Mamas da Rainha ficam mesmo ao lado de outra grande duna que, situada no talhão 139, é bastante mais conhecida, pois foi durante várias décadas do séc. XX um ponto de exploração de areia para construção civil e fabrico de vidro. Esta areia era conhecida como “areia do I”, por a sua extracção ser feita perto deste aceiro.
            Sobre a origem do nome deste local e destas duas dunas, juntas e arredondadas, diz a lenda, segundo José Martins Saraiva em “Lendas do Pinhal do Rei”, que, no tempo de D. Dinis, quando se fazia a plantação do Pinhal, os homens, perante a dificuldade em vencer a irregular superfície de tão abruptas dunas, foram da opinião que tais deveriam ser amaciadas mas, D. Dinis retorquiu: “- Não! Com esforço faremos o trabalho e, se bem olharem, essas dunas, assim juntas, têm a forma de umas mamas de mulher! Não deitaremos por terra tão doces formas da Natureza!”.
            Depois, com o passar do tempo, o povo, brincalhão, acabou por mudar a designação dada por El-Rei e passou a designar aquele lugar do Pinhal por Mamas da Rainha.


            Coordenadas Geográficas aproximadas:
            39° 48' 31" N
            08° 58' 21" W

As Mamas da Rainha
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