terça-feira, 28 de maio de 2013

Acerca dos Guardas-florestais

            “Se a agricultura, as pastagens e as guerras levaram o homem à destruição das florestas, três causas de capital importância a construção naval, a caça, as ferrarias – o forçaram a olhar pela sua conservação e desenvolvimento.”
            O zelo pela floresta foi uma missão desde sempre atribuída aos guardas florestais que já em 1605 eram em número de 24 no Pinhal de Leiria. Couteiros que ao longo dos anos viram as suas atribuições tornarem-se mais abrangentes, requerendo, para um bom desempenho do cargo, conhecimentos técnicos específicos que ultrapassavam as funções de simples polícia.
            Ao guarda florestal era-lhe exigido um conjunto de conhecimentos sobre espécies florestais, sementeiras, plantações, viveiros, colheitas, formação e fixação das dunas, principais ameaças para o pinhal, medidas preventivas e de combate a incêndios, exploração florestal, agrimensura, polícia e fiscalização, entre outros. Participava activa e decididamente em todas as grandes etapas da protecção, fomento e valorização da floresta nacional.
            Existindo a função de guarda florestal desde tempos imemoriais ligada à guarda das matas, foi só em 1824, com a criação da Administração Geral das Matas, que surgiu como carreira da Administração Pública. O regulamento criado no mesmo ano estabelecia uma remuneração certa ao pessoal colocado no Pinhal de Leiria, bem como permitia o uso de armamento. Neste século passaram a residir nos perímetros florestais e foram construídas casas que se destinavam a fiscalizar todo aquele que entrava ou saía com madeiras e outros produtos do pinhal, procedendo-se à sua revista, de modo a evitar roubos e prejuízos que outrora sucediam, derivado à falta de um controlo eficaz. Tornavam-se assim mais exigentes as funções dos guardas florestais.
            No Pinhal de Leiria, cabia-lhes proceder a sementeiras, limpezas, autos de marca, medições de lenhas e madeiras, preenchimento dos mais variados impressos, administração do pessoal, tarefas que requeriam uma grande experiência e honestidade – o timbre da classe de guardas florestais.
            Em serviço permanente, tinham de ter uma conduta irrepreensível, tanto na vida profissional como na vida particular, para que a sua autoridade nunca pudesse ser posta em causa. Não podiam ser negligentes, frequentadores de locais duvidosos nem de tabernas. Tinham direito a casa e a um pequeno terreno que, nas horas de folga, cultivavam para seu sustento. No entanto estavam afastados do mercado, do médico, da farmácia, da escola... E a natureza das suas funções colocava em risco a sua vida, pois eram eles a face visível da aplicação da política florestal, das suas medidas e leis.
            Em 2006, após cento e vinte anos no quadro dos Serviços Florestais, o Corpo Nacional da Guarda Florestal foi integrado no serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente, da Guarda Nacional Republicana.

IN: http://www.afn.min-agricultura.pt/portal
 
Patente de 10 a 27 de Março de 2011 na exposição "Factos e Personalidades do Pinhal do Rei", na Galeria Municipal da Marinha Grande – Edifício dos Arcos (Jardim Stephens)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Casa de Guarda da Cova do Lobo

            Para demarcar todo o Pinhal do lado de terra (Norte, Sul e Este) e também como forma de prevenir que fogos exteriores ao Pinhal Real não passassem para dentro deste, foi criada, no tempo do Marquês de Pombal, uma faixa de terreno em volta do Pinhal com 22 metros de largura e sem qualquer vegetação, a que veio a chamar-se Aceiro Exterior ou Aceiro Geral.
            Mais tarde, em 1790, para aumentar a segurança e o controlo de entradas e saídas do Pinhal, o Ministro da Marinha Martinho de Melo e Castro mandou abrir uma vala com 2 metros de profundidade e 1.5 metros de largura que circundava todo o Pinhal acompanhando o Aceiro Exterior e deixando apenas 4 passagens controladas por guardas. Aí foram construídas casas onde os guardas passaram a viver com as suas famílias. Uma dessas primeiras passagens foi aberta no sítio da Cova do Lobo, topónimo cuja origem desconheço.
            O sítio da Cova do Lobo situa-se na fronteira Este do Pinhal, junto ao Aceiro Exterior, no início do Aceiro I. No local existem duas construções, sendo uma delas, dado o estilo arquitectónico da construção, perfeitamente identificável como sendo uma Casa de Guarda, em tudo semelhante a muitas outras ainda existentes. Esta casa encontra-se ainda em razoável estado de conservação dado que é ainda habitada pelo Sr. Angustinha, antigo Guarda- Florestal, já reformado.
            Foram para mim de extrema utilidade as informações dadas pelo Sr. Angustinha, quando, há cerca de um ano atrás, visitei aquele lugar e o encontrei a tratar da sua horta.
            Quando indaguei acerca da construção que fica a Norte da Casa de Guarda foi-me dada a seguinte explicação:
            No tempo em que o Pinhal teve a sua administração repartida entre a 14ª Administração (a norte) e a 15ª Administração (a sul), a separação fazia-se precisamente naquele lugar, sendo a construção em causa uma antiga Casa de Guarda.
            Assim, esta antiga Casa de Guarda estava ligada à 14ª Administração, situando-se a norte do Aceiro I, enquanto a nova Casa de Guarda estava já ligada à 15ª Administração, situada já a sul do mesmo aceiro.
            Terminada a administração partilhada do Pinhal por estas duas entidades a Velha Casa passou a servir de arrumação à nova Casa de Guarda e, quando já nem para isso servia, por o seu estado de degradação tornar perigosa a sua utilização, passou ao estado de completo abandono. Pretendeu-se deitar abaixo a Velha Casa mas, em decisão posterior, foi decidido não o fazer, mantendo-se ainda hoje de pé apesar do seu avançado estado de degradação. Escorada e já sem parte do telhado, em perigo iminente de derrocada, é caso para dizer: “Um dia a Casa vem abaixo”. É pena!... Pois trata-se de uma construção que, para além de antiga, possui uma traça arquitectónica ímpar em todo o Pinhal.
            Agradeço ao Sr. Angustinha as informações fornecidas, mais tarde confirmadas por outras fontes.

Excerto do Mapa de 1940 do Pinhal do Rei indicando a localização destas Casas de Guarda junto ao Aceiro I

A Casa de Guarda da Cova do Lobo

A antiga Casa de Guarda da Cova do Lobo

Rua Cova do Lobo

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Marco oitavado no Pinhal do Rei

            Sabia já da existência de marcos oitavados no Pinhal do Rei, porém, tenho de confessar, que, até há bem pouco tempo, nunca tinha visto nenhum.
            Foi em mais uma das minhas incursões pela nossa Mata, ali perto do Ponto da Crastinha que, ao passar junto ao Aceiro F, reparei num marco, junto à estrada, que me pareceu estranho. Ao aproximar-me verifiquei que realmente se tratava de um dos famosos marcos oitavados, isto é, de secção octogonal.
            Já depois desta ocorrência, em mais uma sessão de observação de borboletas nocturnas, organizada pelo amigo Carlos Franquinho, tive a oportunidade de, entre os presentes, conversar sobre este marco e sobre a existência de outros idênticos na Mata. Acontece que os amigos presentes estavam um pouco como eu antes de ter encontrado o dito marco, isto é, tinham já ouvido falar ou visto em algum lado mas nunca tinham visto nenhum.   É claro que, dada a proximidade a que estávamos do dito marco, imediatamente, lhe fizemos uma breve visita.
            Fiquei também a saber que existiram marcos deste tipo, nomeadamente, ao longo do Aceiro I, por ser este o aceiro que, outrora, fazia a divisão do Pinhal entre a 14ª Administração (a Norte) e a 15ª Administração (a Sul). Posteriormente, o amigo Hugo Areal enviou-me inclusive uma foto, por ele já conhecida, de um desses marcos, situado precisamente no cruzamento do Aceiro I com o Arrife 11, entretanto já desaparecido.
            Estes marcos, situados estrategicamente no cruzamento de alguns aceiros com os arrifes que com eles se cruzam, dão-nos, nas suas oito faces, indicação do aceiro e do arrife em que estão colocados, e dos talhões que, a Este e a Oeste, se situam a Norte e a Sul do respectivo aceiro.
            Entretanto, e com alguma pena minha, nas publicações que conheço sobre o Pinhal do Rei, não me foi possível saber a origem destes marcos. Muitos terão com certeza já desaparecido, mas estou certo que haverá outros.
            Por agora, e enquanto não tiver a sorte de encontrar um outro exemplar, aqui fica o registo fotográfico do marco oitavado que se encontra junto ao Ponto da Crastinha, no cruzamento do Aceiro F com o Arrife 16.

Excerto do Mapa de 1940 do Pinhal do Rei indicando a localização deste marco e a indicação do aceiro, do arrife e dos talhões por ele assinalados

Marco oitavado no cruzamento do Aceiro F com o Arrife 16

Faces indicando os Talhões 106 e 107 e o Arrife 16

  Faces indicando os Talhões 106 e 85 e o Aceiro F

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A Quinta-Feira da Ascensão ou Dia da Espiga

            A comemoração do feriado municipal no Concelho da Marinha Grande fez-se durante muitos anos a 26 de Março, dia em que, em 1917, após a restauração do Concelho, tomou posse a nova Comissão Instaladora.
            Porém, na Marinha Grande, havia já a tradição de comemorar O Dia da Espiga que, pertencendo ao Calendário Cristão, ocorre 40 dias após o Domingo de Páscoa. Esse dia era comemorado pelos vidreiros, sector industrial dominante à época, mas, também, pelo comércio, sendo feriado e dia de descanso, tradicionalmente assinalado com grande festa no concelho.
            Assim sendo, a partir de 1964, por decisão da Câmara Municipal, o feriado municipal do nosso concelho passou a ser assinalado nesse dia.
            Reunindo-se em grupos familiares ou de amigos, a população desloca-se ao Pinhal do Rei para a realização de piqueniques, de cuja ementa fazem parte os pastéis de bacalhau ou o tradicional coelho com ervilhas, sempre acompanhados de um bom vinho. Mas, manda a tradição que, nesse dia, se apanhe a Espiga, cuja composição, em número e significado das plantas que a compõem, varia de região para região. Regra geral, na Marinha Grande, a Espiga é composta de alecrim ou rosmaninho, um ramo de oliveira, uma papoila, malmequeres ou outras flores silvestres, um ramo de videira e, claro, uma espiga de trigo, simbolizando, respectivamente, a saúde e a força, o azeite e a paz, o amor e a vida, a fortuna, o vinho e a alegria, e o pão. É também usual que se guarde a Espiga até ao ano seguinte para dar sorte.
            A tradição da Quinta-Feira da Ascensão ou Dia da Espiga ainda, nos dias de hoje, é respeitada e aguardada com ansiedade pela população marinhense.
            No tempo em que os meios de transporte eram bem diferentes dos de hoje, a população deslocava-se ao Pinhal para apanhar a Espiga, para merendar ou até para, e além disso, dar um passeio à praia, usando todos os meios ao seu alcance. Uns iam de bicicleta, alguns em carroças de tracção animal ou em camionetas, e outros deslocavam-se no famoso Comboio de Lata. Depois de decorado a rigor e com os vagões de transporte dos grandes pinheiros transformados em vagões de passageiros com a colocação de bancos corridos, o comboio, que circulou no Pinhal entre 1923 e 1965, era cedido pela Circunscrição Florestal para transporte da população.

O Comboio de Lata engalanado em Quinta-feira de Ascensão - Anos 30 do séc. XX

domingo, 5 de maio de 2013

A Fonte da Felícia

            O Vale da Felícia, situado entre as abruptas vertentes do Ribeiro de S. Pedro de Moel, é um dos locais ideais para a realização de piqueniques, passeios pedestres e de bicicleta.
            Diz a lenda, segundo José Martins Saraiva em “Lendas do Pinhal do Rei”, que, a fonte poderá ter sido a origem do nome do local.
            A história remonta ao tempo de D. Dinis quando, o Príncipe Afonso, depois de beber da sua água e ter ficado encantado com a sua leveza e frescura, teria perguntado a sua mãe o nome daquela fonte, ao que a Rainha Santa, lembrando-se, talvez, de algum momento de felicidade, respondeu: - É a fonte da Felícia, meu Príncipe!
            Sendo um dos recantos mais calmos do Pinhal, este local, com sua fauna e flora, é, naturalmente, também de muita importância, uma vez que constitui uma área de grande biodiversidade.
            Acontece que o temporal do passado dia 19 de Janeiro também por aqui fez estragos, deixando quase irreconhecível o lugar e tornando intransitável o pequeno carreiro que, ladeando o Ribeiro, dava acesso ao paradisíaco Vale dos Pirilampos. E nem a própria fonte escapou, já que, apanhada na fúria do enorme temporal, uma árvore de grande porte viria a cair, em cheio, em cima da dita fonte.
            Por outro lado, o íngreme acesso a esta fonte, situada no profundo Vale do Ribeiro de S. Pedro de Moel, teve, em tempos, pequenos suportes de madeira que seguravam as areias e que, dispostos ladeira abaixo, formavam uma espécie de degraus que facilitavam o acesso dos visitantes àquele lugar. Hoje em dia, desaparecidos os degraus, ficaram apenas as estacas que os suportavam, o que, em vez de facilitar, poderá ocasionar eventuais quedas, se é que não aconteceu já.
            Direi ainda que, em tempos, a Fonte da Felícia esteve assinalada com uma placa colocada na Estrada da Valdimeira, que, construída ao longo do Ribeiro, na década de 50 do Século passado, liga a Ponte de S. Pedro à Ponte Nova e que, nos dias de hoje, desaparecida a placa indicativa, a fonte e o lugar passam despercebidos ao visitante menos conhecedor desta Mata.
            E se, da Lenda da Fonte da Felícia, o Príncipe Afonso regressasse para voltar a beber tão leve e fresca água, o que diria de, mesmo num ano tão chuvoso como o que decorre, na fonte, a água já não correr?


O acesso à Fonte da Felícia
Parque de merendas da Fonte da Felícia e Ribeiro de S. Pedro de Moel

A Fonte da Felícia

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O Dia do Trabalhador no Pinhal do Rei

            A comemoração em Portugal do Dia Mundial dos Trabalhadores, fortemente reprimida durante a ditadura do Estado Novo, só a partir de 1974, ano da revolução do 25 de Abril, voltou a ser livremente comemorada no primeiro dia de Maio de cada ano, passando este dia a ser feriado.
            Comemorado por todo o país, sobretudo com manifestações, comícios e festas de carácter reivindicativo, promovidas pelas centrais sindicais, também na Marinha Grande se tem comemorado o Dia do Trabalhador.
            Recordo perfeitamente a enorme afluência de Povo que, nos anos de 1975/76, afluiu às comemorações do Dia do Trabalhador no grande recinto das eiras de Pedreanes para a celebração desta enorme festa na Marinha Grande.
            Na fotografia, abaixo reproduzida, pode ver-se, ao fundo, já do outro lado da estrada, o antigo barracão de recolha de material do caminho-de-ferro florestal (Comboio de Lata) e o antigo depósito de água que abastecia todo o Bairro Florestal de Pedreanes.

Primeiro de Maio de 1976 em Pedreanes - Comemoração do Dia do Trabalhador
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