sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O ciclone de 19/01/2013 no Pinhal do Rei

            No passado dia 19 de Janeiro, o Pinhal do Rei, bem como todo o território de Portugal Continental, foi atingido por um fenómeno meteorológico adverso, caracterizado por uma depressão cavada com ventos ciclónicos na ordem dos 130 km/h, o que não só originou a queda de milhares de árvores por todo o Pinhal, aqui e ali, mas também o desaparecimento de talhões inteiros de arvoredo em alto-fuste, alguns por tombo, outros porque, inexplicavelmente, as árvores foram literalmente decepadas a poucos metros do solo por alguma força incontrolável da Natureza.
            Desta situação refira-se que o arvoredo que mais sofreu foi, naturalmente, o de maior porte ou longevidade, havendo a registar o desaparecimento no talhão 273, junto à antiga Casa-de-guarda do Rio Tinto, de um conjunto de pinheiros de grande porte, com idades à volta dos 180 anos, entre os quais estava aquele que, com os seus 200 anos, era já classificado como árvore de interesse público e o maior pinheiro-bravo do país.
            Desapareceram ainda mais dois pinheiros-bravos classificados de interesse público: um perto do Ponto de Vigia do Facho e outro perto do Tromelgo.
            No Parque do Engenho também foi derrubado um eucalipto centenário que, na sua queda para o exterior do parque, destruiu parte do muro que circunda o parque desde o tempo do tempo do Marquês de Pombal, mesmo junto ao portão de entrada. No exterior do parque, junto ao portão, há a registar ainda a queda de mais duas árvores de médio porte.
            Mas foi no interior do Pinhal que toda a situação piorou, havendo locais onde a devastação foi de tal ordem que nem a pé se conseguia passar, tal era a quantidade de árvores tombadas sobre os caminhos, aceiros, arrifes e estradas, onde nem o asfalto era visível, e o pavimento, coberto de tal quantidade de lixo e detritos de toda a espécie, mais parecia um remoto lugar de uma qualquer mata virgem ainda por desbravar.
            De tudo o que vi, os locais mais afectados, onde o cenário era catastrófico foram: Pedreanes, talhões limítrofes à estrada nacional Marinha Grande-Vieira de Leiria, talhões limítrofes à estrada Pedreanes-Salgueira, sítio das Árvores e Ponte Nova.
             No interior da Mata, a grande quantidade de árvores caídas sobre as estradas florestais e o enorme emaranhado em que ficou todo o Pinhal, levará com certeza muitos e muitos dias e resolver e a abrir de novo á circulação toda a rede viária.
            Nas estradas nacionais e municipais a situação foi rapidamente resolvida graças à intervenção de um conjunto de entidades, com a Câmara Municipal e a Protecção Civil à cabeça.
            E agora, depois da catástrofe, o Povo vai aproveitando o que pode, fazendo lembrar os relatos de Arala Pinto acerca do aproveitamento para lenha das braças das copas dos pinheiros abatidos em talhões sujeitos a corte final quando, após o toque da corneta, dado pelo Guarda-florestal, o “formigueiro humano” invadia o talhão em busca do que, dentro da norma, lhe era permitido levar, aquilo que aos Serviços Florestais para nada já servia mas que para o Povo tinha todo o valor e utilidade.
            Desta vez o sinal não foi dado pela corneta do Guarda-florestal, mas sim logo que o imenso temporal amainou e permitiu o avanço sobre o arvoredo derrubado.
            Por todo o lado onde era acessível chegar se ouvia o som dos machados, serrotes e modernas motosserras, manobrados pelo Povo que, na ausência de fiscalização, ia em busca não do que, como em outros tempos, era autorizado pela norma, mas de tudo o que se podia levar, deixando apenas os gigantescos troncos (alto fuste), por não ser fácil a qualquer um transportá-los. Tudo servia para o transporte, e por todo o lado onde passei se viam já carregados, ou em vias disso, furgonetas, bagageiras de automóveis, atrelados, etc.
            A situação caótica em que ficaram algumas zonas do Pinhal faz lembrar os relatos de quem viveu o grande ciclone de 15 de Fevereiro de 1941, onde foram derrubadas 165 000 árvores e desapareceram 2/3 de todo o Pinhal.
            É certo que a própria Natureza se vai automaticamente regenerar, mas, para quem conhece e ama este Pinhal do Rei, ficará sempre a imagem daquelas majestosas árvores que prematuramente sucumbiram pela força da Natureza, e a certeza que, no seu lugar, já não veremos outras de igual porte e longevidade.
            Tenhamos porém a esperança que, desse privilégio, venham um dia a usufruir os nossos vindouros.

Na estrada Pedreanes-Salgueira

Em Pedreanes

Talhões limítrofes à estrada Marinha Grande-Vieira de Leiria

No Parque do Engenho

No talhão 273, junto à antiga Casa-de-guarda do Rio Tinto

Na Ponte Nova

Nas Árvores

No Tromelgo

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A tracção animal no Pinhal do Rei

            Durante centenas de anos, praticamente até metade do século XIX, os transportes usados no Pinhal para transportar quaisquer produtos foram maioritariamente os carros puxados por bois, sendo também muito utilizados os carros puxados por burros. Tudo era feito por veículos de tracção animal, desde as sementeiras até ao escoamento dos produtos do Pinhal, incluindo o transporte das lenhas para a Fábrica dos Vidros ou de madeiras para os portos de embarque, donde seguiam depois por via marítima.
            Conforme os produtos a transportar, existiam vários tipos de carros: com caixa, sem caixa, com grades, com fueiros ou dobrados. O mais utilizado foi o carro sem caixa ou de caixa aberta.
            Estes carros de tracção animal usaram-se, em alguns casos, nomeadamente nas aldeias em volta do Pinhal, quase até ao século actual.
            Entre os vários tipos de carros ficou célebre o chamado carro dobrado. Era usado para o transporte dos grandes pinheiros, geralmente com comprimentos até 20 metros mas que, em casos excepcionais, podiam até ser bastante maiores. Era composto de 2 carros separados, apoiando em cada um uma das extremidades do pinheiro.
            Estes carros eram puxados normalmente por dois corpulentos bois mas, por vezes, conforme o peso e o tipo de terreno, eram utilizados 4 ou mesmo 6 animais.


 Transporte de pinheiros em carro dobrado - anos 30 do séc. XX

Transporte de pinheiros em carro dobrado - ano de 1940

Transporte de resina - anos 30 de séc. XX

Transporte de mato - anos 50 de séc. XX

 
Transporte de mato - anos 50 de séc. XX

 Transporte de mato - ano de 1984

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Carlos Augusto de Sousa Pimentel e José Carlos de Menezes Alarcão

Carlos Augusto de Sousa Pimentel

            Terminado o curso de Agronomia, ingressou na Repartição de Agricultura do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria em 1865, tendo sido colocado como condutor auxiliar na secção de Águas. Por portaria de 2 de Outubro de 1866 foi colocado na Secção de Águas e Florestas. Em 1869 foi nomeado condutor de 2ª classe e no ano seguinte foi autorizado a frequentar o Instituto Geral de Agricultura de Lisboa, as disciplinas que lhe faltavam para obter a licenciatura em Silvicultura, grau que alcançou em 1873.
            A 20 de Janeiro de 1874 exerceu temporariamente as funções de mestre florestal.
            Em 1876 colaborou com Bernardino Barros Gomes, quando este era chefe da Divisão Florestal do Sul, na elaboração de uma nova planta da Mata de Valverde e em estudos sobre a exploração desta mata e do Pinhal do Cabeção.
            Em 1881 foi nomeado Sub-chefe de Divisão Florestal e no ano seguinte assumiu a chefia interina, passando a efectivo por decreto de 25 de Fevereiro de 1885. A 2 de Setembro de 1886 foi nomeado silvicultor chefe da Circunscrição Florestal do Centro, onde prestou relevantes serviços, especialmente no Pinhal de Leiria.
            Vai utilizar como adubo nas matas a manta morta em decomposição (chamado rapão), com os resultados a revelarem-se magníficos no revestimento das dunas do Pinhal, cuja arborização fica concluída em 1909. Mandou plantar os maciços de Acacias melanoxilon e Eucaliptus globulus do Pinhal de Leiria.
            Foi transferido para a Circunscrição Florestal do Norte.
            Em 1893, uma grave doença obrigou-o a passar à inactividade. Praticamente imóvel e com as cordas vocais profundamente afectadas, Carlos Pimentel permaneceu acamado durante 22 anos. Porém tal condição não o impediu de seguir os desenvolvimentos da ciência, de escrever sobre Silvicultura, sob os mais variados aspectos, entre artigos e monografias sobre pinhais, montados, soutos, arborização de dunas e de serras.
            Colaborou assiduamente no “Diário de Notícias” com “Revistas Agrícolas” que se publicavam em folhetins, n’ “A Agricultura Contemporânea”, na “Revista Florestal” e na “Gazeta das Aldeias”. Foi autor de obras como “Estudos Florestais”, em 1894; “Os Pinhais”, em 1906; e “Os Nossos Pinheiros”, em 1910.
            Faleceu em Lisboa a 28 de Janeiro de 1912.

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José Carlos de Menezes Alarcão

            Provavelmente o primeiro engenheiro agrónomo formado no Instituto Agrícola, entrando como adido na Administração Geral das Matas do Reino em 1862.
            Em 1863 recorreu à própria areia para, conjuntamente com a utilização do ripado móvel, formar e fixar a duna litoral no Pinhal de Leiria, em substituição da paliçada.
            Este método de criação e fixação de dunas revelou-se bastante eficaz e simultaneamente bastante mais económico.
            Foi ainda autor de trabalhos sobre a resinagem.

 
IN: http://www.afn.min-agricultura.pt/portal

 Patente de 10 a 27 de Março de 2011 na exposição "Factos e Personalidades do Pinhal do Rei", na Galeria Municipal da Marinha Grande – Edifício dos Arcos (Jardim Stephens)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Pedreanes e o escoamento de produtos do Pinhal do Rei

            Fazendo parte da Freguesia e Concelho da Marinha Grande, o lugar de Pedreanes situa-se à saída daquela cidade em direcção a Norte, e está integrado na área do Pinhal do Rei situando-se na sua fronteira Este, mais ou menos a meio do comprimento desta Mata.
            Pedreanes ganhou grande importância quando, em 1824, um grande incêndio destruiu uma imensa área florestal à volta de S. Pedro de Moel prejudicando as actividades do embarcadouro onde eram feitos os embarques de madeira e outros produtos do Pinhal do Rei.  Esta situação juntamente com os constantes desgastes provocados pelo avanço do mar levam D. João VI a determinar que o embarque de madeiras do Pinhal de Leiria se fizesse na Foz do Rio Lis. Para apoiar os embarques na Foz Lis foram construídas Tercenas naquele lugar e as Tercenas de S. Pedro de Moel foram, em 1871, mudadas para Pedreanes.
            Entretanto, dada a localização estratégica de Pedreanes, ali foi centralizada a chegada dos produtos do Pinhal, trazidos pelos carreiros em carros de tracção animal e posteriormente transportados para embarque na foz do Lis através do Caminho das Tábuas, assim chamado por aí se transportarem tábuas.
            Este caminho existiu desde 1840 e destinava-se a facilitar o trajecto entre Pedreanes e as Tercenas, na foz do Rio Lis. Mais tarde foi melhorado passando a ser constituído por varas dispostas longitudinalmente e assentes em estacas enterradas no solo, formando uma espécie de linha de caminho-de-ferro onde circulavam grandes carros puxados por bois e com cavas nas rodas para não descarrilarem. Sendo constituído por varas, passou a chamar-se Caminho das Varas.
            Por volta de 1857, o embarcadouro de S. Martinho do Porto voltou a ter grande importância para o escoamento dos produtos do Pinhal do Rei e, mais uma vez, a partir de Pedreanes, se construiu um caminho para facilitar o transporte entre estes dois locais. Tratou-se de mais um caminho com tracção animal e ficou conhecido por Caminho de Ferro Americano. Foi construído inicialmente com carris de madeira mas, em 1861, com a renovação ordenada pelo Ministro das Obras Públicas, o Duque de Loulé, estes foram substituídos por carris de ferro, importados juntamente com material rolante, o que permitiu um melhor deslize.
            Em 1885, com o início da construção da Linha de Caminho-de-Ferro do Oeste que aproveitou parte do traçado do Caminho de Ferro Americano e com a chegada, em 1888, à Marinha Grande, dos comboios a vapor, o Comboio Americano foi desactivado.
            O escoamento dos produtos do Pinhal do Rei passou a fazer-se pela Linha de Caminho-de-Ferro do Oeste sendo construída em 1888/1889 a Estrada da Estação (Av. 1º de Maio) que dava continuidade à Estrada do Engenho que, em 1867, foi a primeira estrada construída pelos Serviços Florestais e ligava o edifício da Administração a Pedreanes (Av. José Gregório), ficando deste modo feita a ligação entre Pedreanes e a estação dos caminhos-de-ferro.
            Mas o transporte por tracção animal era muito moroso e com a introdução, em 1923, de um pequeno comboio de via reduzida (60 cm) a vapor no Pinhal do Rei novamente se construiu um caminho específico para fazer o escoamento dos produtos do Pinhal, fazendo a ligação por caminho-de-ferro entre Pedreanes e a estação de caminho-de-ferro da Marinha Grande. Em 1965, com a rede de estradas bastante melhorada e já com bons transportes rodoviários, o comboio foi desactivado e deixou de circular, passando esta ligação a fazer-se por via rodoviária.
            Para os carreiros que do Pinhal do Rei retiravam produtos, quer fosse para uso próprio, quer fosse para venda, quer fossem pagos ou gratuitos, a saída do Pinhal implicava a passagem junto à Guarda de Pedreanes, onde se encontrava a tranqueira e onde era feito o controlo das carradas pelos guardas-florestais, não fossem os carreiros levar escondido no carrego algo não autorizado.
            Recorde-se que o Pinhal estava desde os tempos do Marquês de Pombal rodeado da Grande Vala, precisamente para obrigar à circulação por locais estratégicos junto das Casas de Guarda e tranqueiras, estabelecidas em 1857 pelo Administrador José de Melo Gouveia, para melhor ser feito o controlo de tudo o que entrava e saia do Pinhal.


Vestígios da Linha do Comboio Americano junto à Fábrica dos Vidros - Início do Séc. XX

Estação do caminho-de-ferro da M. Grande em 1918

Estação do Comboio Americano e Casa de Guarda - Pedreanes em 1937

Comboio de Lata e maquinista - Pedreanes em 1936

Controlo de carradas em Pedreanes - anos 50 do séc. XX



Estação do Comboio Americano em Pedreanes

Entrada da Estação do Comboio Americano em Pedreanes
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