segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Araucarias no Pinhal do Rei

            No Boletim das Obras Públicas de 1860 foi publicado o que, em 1859, o Administrador Geral das Matas José de Mello Gouveia dizia a respeito de algumas experiências que se vinham a fazer no país com essências exóticas, incluindo na Marinha Grande. Entre várias espécies referia a existência de “Quatro exemplares de araucaria imbricata, resto de cinquenta mandados de Inglaterra e plantadas na Marinha Grande, há cerda de catorze anos (1845), resistem à dureza do trato, porque também é rustica a sua índole, sem subirem ainda a maior de 2,30 (metros) de altura e a menor de 0,80 (metros). Para uma espécie que se eleva a 50 metros estão por ora distantes de louvor.”.
            Sem indicação do lugar na Marinha Grande onde foram plantados estes exemplares, é de supor que algumas dessas araucárias tenham sido plantadas na Mata Nacional de Leiria/Pinhal do Rei, mais propriamente no viveiro do Tromelgo.
            No mesmo documento, José de Mello Gouveia dizia mais à frente: “Nesta ocasião só cabe mostrar, (…), a lista das plantas exóticas recentemente importadas ou criadas em viveiros que se pretendem aclimatar (…). Da lista apresentada vieram para a Marinha Grande uma casuaria indica, uma araucaria brasiliensis (…)”.
            Em 1936 Arala Pinto criou um inventário das essências exóticas existentes no Pinhal do Rei, assinalando a existência de duas araucárias inbricata no viveiro do Tromelgo, com 14,7 e 14 metros de altura.
            O Viveiro Florestal do Tromelgo foi abandonado pelos Serviços Florestais em meados do século XX e destes exemplares de araucaria não há qualquer vestígio, assim como também não foi possível saber o lhes terá sucedido.
            Mas, ainda acerca da existência de araucárias no Tromelgo encontrei, aqui, o seguinte texto:

            “Araucaria imbricata araucana no Pinhal de Leiria
           
             Diz o senhor C. A. de Souza Pimentel no “Jornal de Agricultura e Horticultura Prática” de Janeiro de 1894, que o melhor exemplar de Araucaria imbricata que existe em Portugal, encontra-se no sítio de Tromelgo, que faz parte do Pinhal Nacional de Leiria. Terá sido plantada pelo distinto naturalista Adolpho Frederico Moller, que em carta datada de 3 de Janeiro de 1894, publicada no número seguinte, esclarece que a transplantou para lá em 1862, de um caixote onde se encontrava e teria nesse ano 0,7m a 1m de altura.”


Araucaria no Viveiro Florestal do Tromelgo - Início do Século XX

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A ponte nova da Ponte Nova

            Em Setembro de 1948, a troca de correspondência entre Carlos Manuel Baeta Neves e Arala Pinto, a que recentemente tive acesso, abordava, entre outros assuntos, a necessidade de uma correcção torrencial no Ribeiro de S. Pedro de Moel, desviando o curso do ribeiro e obrigando ao derrube de alguns dos grandes eucaliptos ali existentes, tendo-se já cortado alguns sem aparente necessidade, no entender de Baeta Neves.
            Em carta datada de 5 de Setembro, o professor Baeta Neves dizia achar «(…) o caso tão estranho que não queria acreditar; árvores célebres, motivo de admiração de nacionais e estrangeiros, até as leis as protegem quando são de particulares, quanto mais sendo do próprio Estado…». Um pouco mais à frente dizia: «Surpreende-me tanto isto; em primeiro lugar que o ribeiro precise de uma obra tão artificial como a que se anuncia, (…) a intervenção humana neste caso repugna-me em tais moldes; e por outro lado que se cortem para isso árvores tão notáveis.».
            Mas Baeta Neves ia mais longe dizendo: «(…) venho pedir-lhe a confirmação destes boatos, porque sendo assim, como Presidente da “Liga para a Protecção da Natureza” tenho de levar esta a meter-se no assunto, reclamando (…), se acaso não se trata só de boatos, queira dar-me uma satisfação, lamentando ser forçado a uma atitude menos simpática para quem orienta os trabalhos na Ponte Nova (…)».
            A resposta de Arala Pinto, a 9 de Setembro, esclarece as dúvidas de Baeta Neves, tal como, nos dias de hoje, dá a conhecer um pouco das alterações que naquela zona e naquela época foram feitas com a construção da nova ponte. 
            A designação “Ponte Nova”, atribuída ao pequeno local do Pinhal do Rei, parece derivar de, naquele lugar, para se atravessar o ribeiro, se terem construído várias pontes “Novas”, sempre em substituição das antigas e velhas pontes daquele local.
            Na resposta a Baeta Neves, acerca dessas pontes, Arala Pinto diz: «(…) a chamada Ponte Nova, afinal tão velha que decidiu acabar os seus dias, deverá ser substituída por uma construção que ofereça todas as condições de segurança e fácil acesso. (…) e, parece-me bem, meu caro Carlos Manuel, que uma pontesinha de alvenaria não ficaria nada mal na Ponte Nova.». Referindo-se depois ao desvio do ribeiro diz: «Quanto à necessidade de artificializar os cursos de água, se artifício se pode chamar aos trabalhos de correcção torrencial, ela infelizmente existe, (…) (e) traduz-se no fim por protecção à Natureza e não por ataque, pois se deixássemos abandonados a si próprios os cursos de água em que se manifesta erosão, lá se ia a paisagem por água abaixo (…)», referindo-se ao previsto corte de eucaliptos para levar a cabo do necessário desvio do ribeiro.
            «O que há pouco aconteceu, já há muito estava previsto», referindo-se ao colapso da velha ponte da Ponte Nova; e comparando com uma ponte a jusante, já construída sob sua direcção, em cimento armado, continua: «O resultado viu-se e felizmente que a ponte ali atingida tinha o tabuleiro construído em cimento armado, que bravamente resistiu, porque se fosse em alvenaria tinha ficado completamente inutilizada como sucedeu à da Ponte Nova».
            Referindo-se depois aos eucaliptos que Baeta Neves dizia já ter visto cortados, diz Arala Pinto:
            «Os eucaliptos cortados na Ponte Nova e que tão grande celeuma levantaram (…) foram-no única e simplesmente para se poder obter vigamento e tabuado com as dimensões suficientes para se construir um passadiço provisório no local da ponte arruinada. Eram necessárias vigas de grande comprimento e resistência suficiente para que o apoio do novo tabuleiro se fizesse unicamente sobre a estrada e não sobre os arruinados encontros da ponte, (…) (e) era também a Ponte Nova um dos locais do Pinhal de Leiria onde se poderiam obter facilmente essas madeiras.».
            Acerca do necessário desvio do ribeiro, continua Arala Pinto: «Sabes bem que o local onde existem as ruinas da antiga ponte é bastante estreito e que o caudal do ribeiro, mesmo em época calmosa, é também bastante apreciável, sendo o leito constituído por areias. Estás a ver a dificuldade, senão quási impossibilidade de conseguir assentar firmemente as fundações de uma ponte em local com tais características sem efectuar previamente trabalhos de desvio das águas, trabalhos esses que na Ponte Nova implicam o indispensável corte de mais algumas árvores.»
            Continuando a justificar o desvio do ribeiro, Arala Pinto refere-se também ao «mau traçado da estrada, principalmente à saída da ponte para o lado da Vieira, onde existe uma curva que não chega a ter 8 metros de raio à qual se segue uma rampa de 11,5% de declive. (…) tal curva e rampa dificultam extraordinariamente o trânsito (…).
            Ora, uma vez que há necessidade de construir uma nova ponte, e que para essa construção necessário se torna desviar as águas do ribeiro, (…) (que se venha) a construir a nova ponte com todas as condições de facilidade e segurança e melhorar o seu acesso pela eliminação da tal curva e suavização da tal rampa.
            A solução do problema está pois na construção da nova ponte ser feita no local para onde necessariamente haveria que desviar o curso de água no caso de se querer reconstruir a antiga. Aí, com toda a facilidade, se construiria a nova ponte (…), depois do que as águas seriam desviadas para o novo leito, aterrando-se o antigo.».
            E voltando à questão dos eucaliptos já cortados termina: «Os eucaliptos já cortados (…), repito, eram indispensáveis para a construção do passadiço provisório (…)».
            Deveria ter havido uma segunda carta de Baeta Neves, à qual não tive acesso, pois Arala Pinto volta a responder a Baeta Neves a 23 de Setembro dizendo: «Acabo de ler a tua carta de ontem (…)». Nesta resposta Arala Pinto reforça o teor da primeira carta, mantendo tudo o que dissera anteriormente.
            Voltando agora aos nossos dias, de facto, as pessoas mais velhas com quem tenho falado sempre me referiram haver em meados do século passado, antes da construção da actual ponte, uma ponte de madeira na Ponte Nova. Aqui está, creio eu, a explicação.
            E, resumindo e concluindo, as coisas naquela época devem ter-se passado mais ou menos assim:
            Por volta do ano 1948 a velha ponte da Ponte Nova colapsou.
            Cortaram-se no próprio lugar da Ponte Nova alguns eucaliptos de grande porte para construir uma ponte provisória substituindo a velha ponte arruinada.
            Havendo necessidade de construir uma nova ponte, maior e mais robusta e em local mais seguro do que aquele onde estava a velha ponte, escolheu-se a sua localização tendo em conta uma inevitável e necessária correcção torrencial, melhorando o leito do ribeiro.
            Construiu-se a nova e actual ponte da Ponte Nova que, em ambos os acessos, nos pilares de protecção lateral do lado direito, tem a inscrição do ano de construção,1955.
            Melhoraram-se os acessos à nova ponte eliminando curvas apertadas e suavizando a rampa de saída em direcção à Vieira.
            Desviou-se o ribeiro para o novo leito, aterrando-se o antigo.

A velha ponte da Ponte Nova – Início do Século XX


A actual ponte da Ponte Nova

domingo, 11 de setembro de 2016

Árvore de interesse público - Talhão 274

            Este pinheiro, situado no talhão 274 do Pinhal do Rei (Mata Nacional de Leiria), faz parte da lista completa das árvores notáveis, classificadas como árvores de interesse público do Pinhal do Rei e do Concelho da Marinha Grande, que aqui coloquei e que, tal como outros, “pela sua forma, idade e dimensão, justificam que sejam preservados, respeitados e apreciados”. 
            A partir de 1892, com a elaboração do primeiro Ordenamento, o Pinhal passou a ter uma exploração ordenada. Os cortes em povoamentos sujeitos a regeneração passaram a ser rasos (talhão completo), seguidos de sementeira natural a partir de sementões, já usados desde a Época Pombalina, sendo este exemplar um dos mais antigos sementões que se conhecem no Pinhal do Rei.
            Assinalando o interesse desta árvore, existia a seu lado, em 2008, uma placa identificando-a, estando actualmente desaparecida.

            Lugar: Mata Nacional de Leiria - Talhão 274
            Nome científico: Pinus pinaster Aiton
            Nome vulgar: Pinheiro-bravo
            Descrição: Árvore isolada
            Idade aproximada: 170 (em 2000)


Sementão do Talhão 274 e placa identificativa – ano de 2008

Sementão do Talhão 274 – ano de 2015

segunda-feira, 18 de julho de 2016

As Fontes da Ponte Nova

            A enorme riqueza em lençóis de água e as muitas nascentes existentes no Pinhal do Rei, conjuntamente com a necessidade que trabalhadores e animais que na Mata laboravam tinham de matar a sua sede, levaram os Serviços Florestais a construir, a partir de 1909, um conjunto de poços e fontes.
            Estas fontes, muitas delas existentes ainda nos dias de hoje, a julgar pelas inscrições que em algumas podemos observar, caso do Tromelgo e Arrife 20, terão sido construídas, ou reconstruídas, nas décadas de vinte ou trinta do passado século, sendo de crer que antes seriam apenas pequenas bicas decorrentes das várias nascentes que ocorrem em vários locais do Pinhal, tal como se pode ainda ver na Fonte das Canas.
            No lugar da Ponte Nova existem duas fontes, situando-se cada uma delas em margens diferentes do Ribeiro de Moel.
            Na margem esquerda do Ribeiro de Moel, a maior destas fontes, e a mais conhecida, foi em tempos, a par com a Fonte do Tromelgo, uma das mais importantes e concorridas fontes do Pinhal do Rei. Todos se lembram da qualidade e frescura da sua água, e de como era grande a afluência da população em sua busca. Munidos do tradicional cântaro de barro ou do garrafão de vidro, os populares faziam fila esperando pacientemente a sua vez de encher o vasilhame. Era tão grande a qualidade desta água que, noutros tempos, quando ainda nem todos tinham acesso à água canalizada e distribuída pela Câmara Municipal, e porque também não estava ainda vulgarizada a venda de água engarrafada, chegou a ser comercializada por várias aguadeiras, que ali enchiam inúmeros cântaros que transportavam depois em carroças de burro até à Marinha Grande, vendendo porta a porta e pelas fábricas.
            Ainda nos dias de hoje, embora sem comparação com a afluência de outros tempos e apesar das placas junto às fontes (aqui actualmente desaparecida) avisarem que a água não é controlada, podemos ver, por vezes, algumas pessoas ali enchendo os seus garrafões, agora maioritariamente de plástico.
            Esta fonte possui na sua parede do lado direito um bonito alto-relevo representando o Rei D. Dinis e a Rainha Santa Isabel.
            Na sua parede frontal, por cima da bica, existe uma placa em mármore indicando que esta fonte foi reconstruída pela Junta de Freguesia da Marinha Grande em Junho de 1995. Mesmo por baixo desta placa, esteve afixada a partir de 2007, por portaria de 27 de Agosto desse mesmo ano, uma placa, actualmente já desaparecida, indicando que a água desta fonte é uma “água não controlada”.
            Esta fonte da Ponte Nova foi recentemente pintada, porém, antes da pintura, deveria ter havido uma cuidada intervenção ao nível do edificado.
            No mesmo lugar da Ponte Nova, na margem direita do Ribeiro de Moel, um pouco afastada da estrada, existe uma pequena fonte idêntica às que podemos encontrar na estrada que ladeia o Ribeiro. O acesso a esta fonte faz-se por um caminho junto à ponte sobre o Ribeiro, do seu do lado Nascente, ou um pouco mais acima por uma escadaria de pedra, ou ainda atravessando o Ribeiro por uma ponte pedonal de madeira entre a fonte atrás referida e as ruinas que se diz serem do antigo engenho de serrar do Séc. XIX movido a água, mais tarde transformado em moinho de cereal.
            A designação “Ponte Nova”, atribuída ao pequeno lugar e às fontes, deriva de, naquele lugar, para se atravessar o Ribeiro, se terem construído várias pontes “Novas”, sempre em substituição das antigas e velhas pontes daquele local.
            Estranho é que as duas fontes sejam designadas pelo mesmo nome mas, considerando que a Fonte da Ponte Nova é para toda a população marinhense a que se situa na margem esquerda do Ribeiro, e não conhecendo outro nome para a pequena fonte na margem direita do mesmo, refira-se que foi o próprio Eng.º Arala Pinto, Chefe da Circunscrição Florestal da Marinha Grande e Administrador do Pinhal de Leiria que, em 1938, no seu livro “Pinhal do Rei”, assim as designou.

Fonte da Ponte Nova em 2012 – Margem esquerda do ribeiro

Fonte da Ponte Nova em 2016 – Margem esquerda do ribeiro

Placa alusiva à reconstrução em 1995



Acessos à pequena fonte na margem direita do ribeiro

Fonte da Ponte Nova em 2015 – Margem direita do ribeiro

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Arranjada a estrada de acesso ao Tromelgo

            Depois de muita polémica, reuniões ao mais alto nível, intervenções de grupos defensores e amigos da Mata Nacional (Pinhal do Rei), artigos em jornais, reportagens na televisão, intervenções nas redes sociais, e, sobretudo, do “jogo do empurra” acerca de quem queria fazer e não podia ou quem podia fazer e não queria, lá se arranjou o acesso ao Tromelgo.
            Finalmente foi aberta hoje a circulação automóvel com um novo tapete de asfalto, não se limitando apenas ao simples tapar dos buracos.
            Parabéns a quem o fez e ou a quem o deixou fazer. Pena é que não se tenha podido alargar um pouco. Veremos agora quanto tempo vai durar se continuar a ser atravessado por veículos de grande tonelagem, que por vezes ali circulam.
            Por outro lado, nas estradas da grande Mata, também vi alguns melhoramentos, com alguns buracos tapados e também com alguns pequenos troços com tapete novo. É certo que alguns destes são troços onde no próximo fim-de-semana vai passar o Rali Vidreiro - Centro de Portugal, mas ao menos valha-nos isso.
            Também algumas fontes foram recentemente pintadas, o que já não é mau, porém, antes da pintura, deveria ter havido uma cuidada intervenção ao nível do edificado.
            Mas falta ainda arranjar muitas estradas, principalmente mais para norte, nos acessos ao Ponto de Vigia da Crastinha, antigo areeiro, Estrada dos Vidreiros e outras ali à volta. Porém, não sendo uma zona turística como a Ponte Nova ou o Tromelgo, poderemos estar perante um problema de maior envergadura, principalmente se não houver vontade de o fazer ou de o deixar fazer. Haja boa vontade e consenso e tudo se fará.
            E, voltando ao Tromelgo, para quando melhoramentos no parque de merendas e zona envolvente e a reconstrução da célebre fonte, tão tristemente arruinada e abandonada?

Acesso ao Tromelgo

sexta-feira, 10 de junho de 2016

"Aos Pinheiros nas Dunas" (pinheiros serpente)

            Ao percorrermos as imediações da orla marítima do Pinhal do Rei, encontramos os imponentes pinheiros-bravos rastejantes, também conhecidos por pinheiros serpente, que a elevada salinidade proveniente da costa, impelida pelos ventos, impede o normal crescimento das suas gemas terminais mais novas, prejudicando-os no seu crescimento e obrigando-os a rastejar, tomando bizarras formas encurvadas.
            Referindo-se a estes curiosos pinheiros, o Engº Arala Pinto, chefe da Circunscrição Florestal da Marinha Grande entre 1927 e 1956, escreveu, em 1938, no seu livro “Pinhal do Rei”:
            "Esses pinheiros, pioneiros do litoral, formando os batalhões, são a guarda avançada, os sacrificados, […], a bem dos seus irmãos já distantes do mar. A sua missão consiste na segurança das areias e poderão vir a dar lenhas, resinas, peças para carroçarias, mas nunca se deverão abater senão em pequenas parcelas, em cortes […] (…rasos em pequenas superfícies, máximo um hectare), como os que se praticaram no Pinhal de Leiria, com bons resultados, mas estes mesmos a um mínimo de 500 m da linha das marés."
            Em 1940, Afonso Lopes Vieira em “Onde a terra se acaba e o mar começa” escreve um poema aos pinheiros serpente (pinheiros das dunas):

Aos Pinheiros nas Dunas
 
O que a vida fez
de vocês,
velhos pinheiros da minha infância,
árvores de ânsia!…
 
O que a crueza de mil invernos,
as tormentas todas esguedelhadas
de vendavais
de inferno,
fizeram desses corpos de tortura
e de aflição,
- que tanto ansiais
por fugir desse chão!
 
Em pequeno metíeis-me medo;
minha Mãe ria e dizia - Medroso! -
Que querem? Vocês faziam-me nervoso;
e só muito mais tarde, meus amigos,
deixei de vos olhar como a perigos,
como a cobras de horror;
só mais tarde entendi vosso segredo
e compreendi a trágica beleza
da vossa dor!
 
Ó marinheiros pinheiros,
gageiros da tempestade!
Náufragos arrojados
à duna! Cristos pregados
na areia que vos tem crucificados:
- fazeis-me dor e saudade,
a saudade de mim, a mais cruel,
meus pinheiros de Moel!
 
A saudade do tempo
em que vos eu temia,
porque, inocente, ainda não sabia,
ó trágico-marítimos!,
que sofreis e suais
e morreis de guardar
a floresta que vive e reverdece
e cresce
à sombra desse lento agonizar!
 
O que a vida fez
de vocês,
velhos amigos da minha infância
que eu amo como avós.
 
Como tudo vai longe na distância…
 
Amigos, o que a vida faz de nós!…
  
A. L. Vieira

Pinheiro serpente junto à praia das Pedras Negras

quinta-feira, 5 de maio de 2016

As dunas do litoral português e o Estado Novo

           O meritório trabalho de fixação e arborização das dunas móveis do litoral português, aqui mencionado, cujos primeiros trabalhos, embora sem sucesso, começaram em finais do século XVIII e se prolongaram por todo o século XIX sendo apenas dados por terminados por volta de meados do século XX, teve, também, nos seus derradeiros anos, um invulgar protagonismo político.
            Em 1941, com a publicação de um cartaz (53x38 cm), o Estado Novo, através do Secretariado da Propaganda Nacional, aproveitava o resultado dos trabalhos de fixação e arborização das dunas do litoral português, Pinhal do Rei incluído, para propaganda política.

IN: Biblioteca Nacional de Portugal - Biblioteca Nacional Digital
http://purl.pt/index/geral/aut/PT/15444.html

sábado, 19 de março de 2016

Fixação e arborização das dunas do Pinhal do Rei e outras matas

            A maior parte das costas marítimas portuguesas estiveram até ao século XIX sujeitas ao avanço das areias que os ventos arrastavam do litoral para o interior levando à formação de desertos de dunas móveis e à consequente desertificação das terras do interior.
            Dizem os historiadores que já D. Dinis, ao incrementar o plantio do Pinhal do Rei, usualmente conhecido por Pinhal de Leiria, teria tido como principal objectivo segurar as areias que os ventos vinham arrastando para o interior. Porém, o certo é que só no início do século XIX se começou a resolver tal problema, tendo os primeiros trabalhos sido ainda realizados em finais do século XVIII, embora sem sucesso.
            Para que se pudessem fazer as sementeiras para fixação e arborização das dunas móveis foi preciso construir primeiro um obstáculo que detivesse as areias transportadas pelo vento, de modo a evitar o soterrar dessas sementeiras. Esse obstáculo veio a ser chamado duna primária e foi construído através da técnica do ripado móvel, se bem que inicialmente também se tenham utilizado as primitivas paliçadas.
            José Bonifácio de Andrada e Silva orientou o início da fixação e arborização sistemática das dunas litorais no começo do séc. XIX (1802) no Couto de Lavos, com coordenação dos trabalhos por parte do Cabo dos Guardas do Pinhal de Leiria Manoel Afonso da Costa Barros.
             Nas zonas a arborizar posteriormente, já defendidas de novos areamentos pela duna primária, espalharam-se sementes de plantas arenosas tais como as de estorno, madorneira, tojo, giesta, camarinheira e sargaço. Mais tarde, para melhor fixação das areias, procedeu-se à sua sementeira com penisco.
            Para a sementeira abriram-se regos, à enxada, paralelos à duna primária e distanciados 1,3 metros entre si. Depois de adubados os regos com rapão (adubo natural do pinhal também designado por manta morta ou humo), espalharam-se no seu interior as sementes que, por seu turno, foram cobertas por uma pequena camada de areia. Em seguida, como forma de protecção às sementeiras, espalhava-se mato para que a sementeira ficasse coberta por ramaria e folhagem, sendo este depois parcialmente enterrado a fim de melhor o fixar no lugar onde tinha sido colocado.
            O mato utilizado na cobertura das sementeiras era proveniente das matas de Foja e Pinhal do Urso, transportados para o Pinhal do Rei por muares, carros de boi ou por via fluvial, onde esse meio de transporte fosse viável.
            A desertificação das costas marítimas não era caso único na zona do Pinhal do Rei, era um problema nacional e a sua resolução atravessou três séculos.

            ● Século XVIII
           Realizados sem sucesso os primeiros trabalhos no final do século.

            ● Século XIX
            Primeiras sementeiras metódicas no início do século.
            Trabalhos regulares a partir de meados do século.
            Intensificação dos trabalhos no final do século.
            Florestados 3000 hectares de dunas do litoral nacional.

            ● Século XX
            Conclusão dos trabalhos de fixação de dunas.
            Florestados novos 34 000 hectares de dunas do litoral nacional.

            Por hectare eram necessárias: 22 carradas de mato, 15 kg de penisco, 5 Kg de sementes de plantas das areias, 4 carradas de mutano para sebes e 15 carradas de rapão. 
         Na arborização das Dunas foram envolvidos vultuosos meios humanos, maioritariamente mulheres. 
           A conclusão dos trabalhos de fixação de dunas móveis do litoral português deu-se apenas por volta de meados do século XX.

Preparando os regos - início do Séc. XX

 Transporte de mato por muares - início do Séc. XX

Transporte de mato em carros de bois - início do Séc. XX

Espalhando o mato - início do Séc. XX
 
Arborização na zona de protecção - Ano de 1954
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...